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UMA VIRGEM PARA O SHEIK romance Capítulo 78

JÚLIA

*

Levaram minhas coisas para casa.

Eu mal prestei atenção em como isso aconteceu.

Mala, documentos, o envelope que eu ainda não tinha coragem de abrir, tudo foi resolvido por outras pessoas, por mãos desconhecidas que pareciam saber exatamente o que fazer, enquanto eu… eu só existia.

Eu fui direto para o hospital.

Era ali que tudo começaria a se tornar real.

Até então, tudo ainda parecia distante, como se fosse uma história que alguém estivesse me contando. Como se, a qualquer momento, alguém fosse dizer que houve um engano.

Mas não houve.

Assim que entrei, senti o cheiro.

Aquele cheiro característico de hospital… mas diferente.

Mais frio.

Mais definitivo.

Fui recebida por uma funcionária que já parecia estar me esperando. Tudo já havia sido organizado. Claro que havia. Ele não faria nada pela metade.

— Senhorita Júlia?

Perguntou ela, com cuidado.

Assenti.

— Vou levá-la até o setor.

Setor.

Nem precisou dizer qual.

Caminhei ao lado dela, sentindo cada passo pesar mais do que o anterior. Meu corpo parecia entender antes da minha mente o que estava prestes a acontecer.

Quando chegamos, ela parou diante de uma porta.

— A senhora tem certeza que quer vê-la?

A pergunta me atravessou.

Eu queria?

Eu precisava.

— Quero.

Minha voz saiu baixa.

Quase quebrada.

Ela abriu a porta.

E eu entrei.

O ambiente era pequeno.

Frio.

Silencioso.

E ali…

Ela estava.

Deitada.

Imóvel.

Coberta até o peito.

O rosto exposto.

Pálido.

Sem vida.

Por um segundo…

Eu não consegui me mexer.

Meu cérebro simplesmente recusou.

Aquela não era ela.

Não podia ser.

Minha mãe era calor.

Era movimento.

Era voz.

Era abraço.

Aquilo ali…

Aquilo era… vazio.

Dei um passo à frente.

Depois outro.

E então parei ao lado dela.

Olhei.

De perto.

Detalhe por detalhe.

Os traços ainda eram os mesmos.

Mas não havia expressão.

Não havia alma.

Não havia nada.

Foi como se alguém tivesse enfiado a mão dentro do meu peito e arrancado meu coração sem anestesia.

— Mãe…

Sussurrei.

Mas não houve resposta.

Claro que não houve.

Minhas pernas fraquejaram.

Segurei na lateral da maca para não cair.

— Eu cheguei…

Minha voz falhou...

— Eu… demorei, mas eu cheguei.

As lágrimas começaram a cair sem controle.

Quentes e desesperadas.

— Me desculpa…

Repeti, inúmeras vezes, me desculpa…

A ideia de que ela poderia ter partido achando que eu a abandonei, aquilo era insuportável.

Aquilo me destruía por dentro.

Toquei a mão dela.

Fria, dura.

Sem resposta.

Retirei rapidamente, como se aquilo confirmasse algo que eu ainda não queria aceitar.

Fiquei ali por não sei quanto tempo.

Talvez minutos.

Talvez horas.

O tempo não existia mais.

Quando finalmente saí, eu já não era a mesma.

Algo tinha sido enterrado dentro de mim antes mesmo do enterro começar.

E depois disso…

Tudo aconteceu rápido demais.

Assinaturas, documentos, autorizações.

Palavras técnicas sendo jogadas de um lado para o outro.

Eu apenas acompanhava sem questionar, sem reagir.

Como se estivesse assistindo tudo de fora.

E então…

O cemitério.

Um dos mais caros de São Paulo.

Claro.

Al Rashid havia preparado tudo.

Cada detalhe.

Cada custo.

Cada formalidade.

Como se dinheiro pudesse tornar aquilo menos doloroso.

Mas não tornava.

Nunca tornaria.

O caixão estava ali.

Fechado, pesado e definitivo.

As pessoas ao redor… não significavam nada.

Desconhecidos.

Funcionários.

Pessoas pagas para cumprir um papel.

Ninguém me conhecia.

Ninguém conhecia minha mãe.

Ninguém sabia da nossa história.

Ninguém sabia o que aquilo representava.

E, ainda assim, estavam ali.

Cumprindo um protocolo.

Assistindo algo que, para mim, era o fim do mundo.

Quando o caixão começou a ser levado…

Meu corpo inteiro reagiu.

— Não…

Murmurei, sem forças...

— Espera…

Mas ninguém parou.

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