Eu não sei por quanto tempo dormi.
Perdi completamente a noção.
O cansaço emocional me consumiu de um jeito que meu corpo simplesmente desligou, como se fosse a única forma de sobreviver àquilo tudo.
Mas, mesmo no sono, não havia descanso, havia isso, havia dor.
Havia uma sensação constante de que algo dentro de mim tinha sido arrancado e não havia como colocar de volta.
Acordei com um toque leve no braço.
Demorei alguns segundos para reagir, como se estivesse emergindo de um lugar muito profundo. Meus olhos arderam ao abrir, pesados, sensíveis à luz suave da cabine.
E foi então que a vi.
Uma mulher bonita, elegante, vestida de forma impecável, dentro dos padrões daquele país. Seu olhar era gentil, mas profissional. Havia uma calma nela que contrastava completamente com o caos dentro de mim.
— Senhorita Júlia.
Disse ela, com uma voz suave.
— Eu sou a comissária particular do Sheik. Meu nome é Ruby. Estou aqui para servi-la. A senhorita não se alimenta há horas.
Me ajeitei lentamente no assento, ainda tentando entender onde estava, o que estava acontecendo, como se, por um breve momento, eu tivesse esquecido tudo.
Mas a lembrança voltou.
Como um soco.
Minha mãe.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Eu não quero comer… obrigada.
Minha voz saiu fraca.
Cansada.
Mas ela não recuou.
— Senhorita Júlia, eu insisto. Seu corpo precisa de energia.
Suspirei.
Eu não tinha forças para discutir.
— Tudo bem…
Murmurei.
— Eu aceito um copo de suco e alguns biscoitos, se tiver.
Ela sorriu de leve, com paciência.
— Temos algumas opções mais completas. Torta salgada, torta de chocolate, também há arroz com legumes e frango à milanesa.
Aquilo tudo parecia distante demais da minha realidade.
— Traga só o suco e a torta salgada.
Ela assentiu e se retirou.
Fiquei ali, sentada, olhando para o vazio.
O avião seguia em um silêncio controlado, elegante, como tudo que envolvia aquele homem.
Mas, dentro de mim, nada era elegante, e sim desespero contido.
Olhei para a minha mão e eu ainda segurava o envelope, e eu não entendia o medo que eu estava sentindo de abri-lo.
Minutos depois, Ruby voltou com a bandeja.
O aroma da comida invadiu o espaço ao meu redor. Era bom. Muito bom. Bem preparado, bem apresentado, como se cada detalhe tivesse sido pensado.
Mas meu estômago estava embrulhado.
Meu corpo não respondia ao básico.
— Guarde esse envelope para mim.
Pedi pra Ruby antes de começar a comer.
Peguei o copo de suco, mesmo sem vontade.
Tomei um gole.
Depois outro.
Aos poucos, a garganta parou de arder.
Tentei a torta, uma colher, duas, três.
E então parei.
Não dava.
— Obrigada.
Falei, empurrando levemente a bandeja.
Ela não insistiu dessa vez.
Recolheu tudo com cuidado.
E, antes de sair, voltou a falar:
— Senhorita Júlia… no fim do corredor, há uma suíte preparada para você. Caso queira descansar com mais conforto.
Franzi levemente o cenho.
— Uma suíte?
Aquela palavra soou estranha.
Mas, ao mesmo tempo fazia sentido.
Era o avião de um Sheik.
Nada ali seria comum.
— Sim.
Respondeu ela, com naturalidade. — Posso levá-la até lá, se preferir.
Balancei a cabeça.
Não queria ficar ali.
Não queria pensar.
Talvez deitar ajudasse.
Levantei, sentindo o corpo um pouco pesado, e a segui.
Caminhamos por um corredor discreto, bem iluminado, silencioso.

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