Duas horas se passaram.
Duas horas que pareceram uma eternidade e, ao mesmo tempo, não foram suficientes para processar absolutamente nada.
Eu já estava com a mala pronta.
Cada peça dobrada, cada objeto guardado, cada gesto, tudo parecia mecânico.
Eu não pensava, apenas fazia. Como se meu corpo estivesse seguindo um roteiro automático enquanto minha mente permanecia presa em um único ponto:
Minha mãe.
Eu precisava ir embora.
Eu precisava chegar até ela.
Mesmo sabendo que não haveria abraço.
Mesmo sabendo que não haveria resposta.
Ainda assim, eu precisava ir.
Estava sentada na beira da cama, olhando para o nada, quando ouvi batidas na porta.
Meu coração deu um salto.
Por um segundo, pensei que fosse ele.
Mas não era.
Levantei e caminhei até a porta com passos lentos, abrindo sem pressa.
Era uma das servas.
Postura impecável, olhar baixo, expressão neutra.
— Senhorita Júlia.
Disse ela, com respeito o helicóptero já está preparado. Estamos prontos para levá-la até a aeronave.
A aeronave.
Aquilo soou distante e frio.
Como se eu estivesse sendo transportada, não voltando para casa.
Balancei a cabeça, sem dizer nada.
Olhei para minha mala, respirei fundo e a peguei.
— Pode me acompanhar, por favor.
Assenti novamente e saí, fechando a porta atrás de mim.
Sem olhar para trás.
Sem hesitar.
O corredor do harém parecia diferente.
Ou talvez fosse eu que estava diferente.
Os mesmos detalhes, os mesmos tapetes, as mesmas portas, tudo permanecia igual, mas já não causava o mesmo impacto.
O luxo não impressionava mais. O ambiente não intimidava.
Nada ali tinha valor agora.
Caminhei ao lado da serva em silêncio, ouvindo apenas o som dos nossos passos ecoando pelo corredor.
Passamos por áreas que eu ainda não conhecia, por caminhos mais reservados, por saídas que eu sequer sabia que existiam.
Tudo parecia cuidadosamente planejado, discreto, rapido e distante de olhares curiosos.
Quando finalmente atravessamos uma das últimas portas, senti o vento, o ar aberto, o céu.
Meus olhos demoraram alguns segundos para se adaptar à luz mais intensa, mas quando consegui focar, vi o helicóptero.
Imponente, ligado, pronto para partir.
O som das hélices já cortava o ar, criando uma pressão constante, quase ensurdecedora.
Meu coração apertou.
Era real.
Eu estava indo embora.
Meus olhos, quase por instinto, começaram a procurar.
Percorreram o espaço ao redor.
As escadas.
Os corredores externos.
As janelas do palácio.
Qualquer lugar onde ele pudesse estar.
Mas não havia sinal de Al Rashid.
Nenhum.
Apenas movimento técnico.
Servos discretos.
Seguranças atentos.
E então…
Laura.
Ela estava um pouco mais distante, parada sob a sombra de uma coluna.
Nossos olhos se encontraram.
Não havia mais ódio explícito.
Não havia gritos.
Havia… algo diferente.
Talvez alívio.
Talvez cansaço.
Talvez até um traço de culpa.
Eu não sabia dizer.
Mas entendi uma coisa naquele instante:
Ela já sabia.
Sabia da morte da minha mãe.
Sabia que eu estava indo embora.
E, provavelmente, sabia que o plano dela de me tirar dali, não precisava mais existir.
Desviei o olhar.
Não havia mais o que dizer entre nós.
Fui conduzida até o helicóptero.
Um dos seguranças abriu a porta para mim, e eu entrei sem resistência, segurando minha mala com força.
Me acomodei no banco e, antes que a porta fosse fechada, olhei para fora mais uma vez.
Dessa vez com intenção.
Procurei por ele de novo.
Mais uma vez.
Como se, no fundo, eu esperasse que ele aparecesse correndo, que dissesse algo, que me impedisse ou que, pelo menos, estivesse ali para se despedir.
Mas ele não veio.
E isso doeu mais do que eu gostaria de admitir.
Por quê?

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