JÚLIA
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*
Uma hora, eu estava me sentindo a mulher mais desejada da face da terra.
No minuto seguinte, o homem que me fez sentir assim estava diante de mim, com o rosto sério, a voz pesada, me dizendo que a pessoa mais importante da minha vida havia morrido.
Foi como se alguém tivesse arrancado o chão sob os meus pés.
A sensação não foi imediata, não foi uma queda brusca. Foi pior. Foi um sufocamento lento, cruel, como se o ar fosse sendo retirado dos meus pulmões aos poucos, como se cada respiração exigisse um esforço maior que o anterior.
Eu tentei respirar.
Mas o ar não vinha.
Ou talvez viesse, só não fazia mais sentido.
Em uma hora, eu era uma pessoa lutando com todas as forças para manter minha mãe viva. Eu suportava humilhações, engolia o orgulho, ignorava o nojo de mim mesma. Eu vendi aquilo que eu sempre guardei como algo especial. Eu deixei de lado tudo o que eu era para tentar salvá-la.
No minuto seguinte eu era alguém completamente sozinha.
Sem propósito, sem direção, sem nada a perder.
É estranho pensar nisso, não é?
Alguém ter que se sacrificar por alguém que já estava destinado a partir.
Alguém abrir mão de si mesma por uma luta que, no fim, já estava perdida.
Mas como eu poderia saber?
Como eu poderia simplesmente aceitar?
Ela era minha mãe.
A única pessoa que sempre esteve ao meu lado.
A única que me viu crescer, que me acolheu nos dias ruins, que acreditou em mim quando nem eu mesma acreditava.
E eu não estava lá.
Essa era a pior parte.
Não foi apenas a morte.
Foi a ausência.
Foi a ideia de que, nos últimos momentos dela, eu não estava ali. Que ela pode ter chamado meu nome e eu não respondi. Que ela pode ter me esperado e eu não cheguei.
Que ela pode ter partido acreditando que eu a abandonei.
Fechei os olhos com força, tentando conter o choro que parecia não ter fim.
Mas não adiantava.
A dor não diminuía, não suavizava, não dava trégua.
E no meio de tudo isso… ele.
Al Rashid.
O homem que estava diante de mim.
O homem que, por um breve momento, me fez esquecer quem eu era, onde eu estava e por que eu tinha chegado até ali.
Ele tinha tudo para ser amado.
Tudo.
Presença.
Força.
Cuidado, mesmo que estranho, mesmo que imperfeito.
Havia algo nele que me puxava, que me fazia questionar, que me fazia… sentir.
Mas não importava mais.
Nada disso importava.
Porque eu não conseguiria perdoá-lo.
Amá-lo, viver ao lado dele, aceitar aquela vida, nada disso traria minha mãe de volta.
Nada.
O dinheiro dele não foi suficiente para salvá-la.
O poder dele não impediu que ela morresse.
E os dias que eu passei sendo mantida ali, não foram suficientes para me convencer a ficar.
Pelo contrário.
Foram suficientes para me mostrar exatamente o que eu não queria.
Eu não queria ser propriedade de ninguém.
Não queria viver sob regras que não escolhi.
Não queria acordar todos os dias ao lado de um homem que, no momento mais importante da minha vida, escolheu me manter longe da pessoa que eu mais amava.
Aquilo não tinha justificativa.
Não existia explicação aceitável.
Não existia frase que pudesse suavizar o que foi feito.
Não existia “eu não sabia”.
Não existia “eu achei que ela iria melhorar”.
Não existia “eu fiz o que achei melhor”.

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