O desespero me atingiu de forma brutal.
Não era pela ameaça que Júlia havia feito. Não era pela possibilidade de denúncia, de escândalo ou de qualquer repercussão política que aquilo poderia causar.
Eu já enfrentei crises muito maiores que aquela ao longo da minha vida. O poder, quando bem usado, sempre encontra maneiras de contornar tempestades.
Mas aquilo era diferente.
Era a ideia de perdê-la.
Essa possibilidade se instalou dentro de mim como um veneno lento, espalhando-se pelo meu corpo com uma intensidade que eu nunca havia experimentado antes. Eu havia desejado Júlia desde o primeiro momento em que a vi. Desde aquele instante em que seus olhos se levantaram para me encarar, sem aquela reverência artificial que tantas mulheres aprendem a demonstrar diante de homens como eu.
Naquele momento, algo dentro de mim já havia decidido.
Ela seria minha.
Não apenas por desejo físico, não apenas por capricho ou curiosidade. Era algo mais profundo, mais irracional. Uma certeza silenciosa que se instalou dentro de mim antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo.
E agora… pensar nela longe de mim fazia meu peito apertar de uma forma quase insuportável.
Tentei convencê-la.
Me aproximei um pouco, com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse fazer aquela situação explodir ainda mais.
— Júlia… eu sei que errei.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Eu sei que errei em manter você aqui. Sei que errei em não permitir que você voltasse para ver sua mãe.
Ela não respondeu. Apenas me observava com os olhos vermelhos, carregados de dor e desconfiança.
Respirei fundo antes de continuar.
— Mas eu não sabia que o caso dela era tão grave. Pessoas vivem anos com câncer quando recebem tratamento adequado. Eu vi isso acontecer muitas vezes.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar pensamentos que pareciam se atropelar dentro da minha cabeça.
— O tratamento dela estava sendo pago. Eu garanti isso. E continuaria pagando o tempo que fosse necessário.
Júlia riu.
Foi uma risada curta, amarga, carregada de desprezo.
— Agora que isso aconteceu… Continuei, ignorando a interrupção — você não vai ter mais ninguém, Júlia. Não existe mais ninguém esperando por você.
As palavras saíram duras, e eu percebi tarde demais o quanto aquilo poderia soar cruel.
— Mas eu estou aqui...
Acrescentei rapidamente.
— Eu posso cuidar de você. Posso dar a você uma vida digna, segurança e conforto. Uma vida que você jamais precisará lutar para sobreviver novamente.
Ela me encarou como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
— Ah, me poupe, Al Rashid.
A forma como disse meu nome foi como uma bofetada.
— Você não consegue fazer feliz nem a Laura.
Continuou, com a voz carregada de sarcasmo.
— Não dá conta nem de uma mulher e quer me convencer que vai dar tudo isso para mim?
Cada palavra parecia vir carregada de anos de frustração que nem eram dela.
— Se você não consegue nem cuidar da sua primeira esposa, vai cuidar de mim?
Aquilo me atingiu em cheio.
As palavras de Júlia não tinham limites. Parecia que a morte da mãe dela havia quebrado todas as barreiras que antes existiam entre nós. Como se aquela dor tivesse aberto uma porta dentro dela que permitia que tudo o que pensava, tudo o que guardava, finalmente saísse.
— Não misture as coisas, Júlia. Falei, tentando manter a voz firme.
Ela ergueu uma sobrancelha, desafiadora.
— Eu não me casei com Laura por amor. Aquilo foi um acordo entre famílias, uma decisão política. Mas com você…
Antes que eu pudesse terminar, ela levantou a mão.
— Já chega dessa conversa.
A voz dela estava fria.
— Eu não quero mais te ouvir.
Cada palavra parecia uma porta se fechando.
— Organize minha viagem. Eu vou arrumar minhas coisas.

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