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UMA VIRGEM PARA O SHEIK romance Capítulo 70

SHEIK

*

Juntei o celular do chão com a sensação de que aquele objeto pesava mais do que qualquer arma que já empunhei na vida. Meus dedos tremeram ao tocar na tela, não por medo das consequências políticas, nem pelo escândalo que viria, mas porque, naquele gesto simples, eu estava oficialmente destruindo o futuro que Júlia acreditava ter.

Desmarquei o casamento.

O som da confirmação pareceu ecoar dentro do meu peito como um tiro disparado em espaço fechado. Talvez Júlia nunca me perdoasse. Talvez aquele fosse o início do meu fim ao lado dela. Ainda assim, havia uma esperança pequena, quase patética, se agarrando à minha consciência: se eu falasse a verdade, ao menos uma vez, sem manipulação, sem me esconder atrás de títulos ou poder, talvez eu conseguisse salvá-la de uma mentira maior.

Nunca pensei que o caminho até o harém um dia fosse me causar peso. Aquele corredor sempre fora sinônimo de controle, domínio, obediência. Homens se curvavam, mulheres aguardavam, e tudo funcionava conforme a minha vontade.

Mas naquela manhã, cada passo parecia uma sentença. Senti como se tivesse concreto nos meus pés e tijolos empilhados nos ombros, me forçando para baixo, como se o próprio palácio quisesse me impedir de seguir adiante.

As concubinas sorriram quando passei.

Sorrisos treinados.

Sorrisos vazios.

Sorrisos que, pela primeira vez, me causaram repulsa.

Desviei o olhar. Não havia espaço para sorrisos. Não havia espaço para desejo, poder ou vaidade. Eu estava me sentindo o pior dos homens. Um farsante vestido de autoridade. Um covarde que se aproveitara da esperança de uma mulher.

Ao chegar em frente à porta da suíte, parei.

Encarei aquela porta como se fosse uma passagem para o inferno. E, de certa forma, era. Do outro lado estava Júlia, ainda intacta na ignorância, ainda acreditando que sua dor tinha limites controláveis. Bastava eu girar aquela maçaneta para transformar tudo em ruínas.

Abri sem bater.

Não porque eu não precisasse de permissão, mas porque, no fundo, eu sabia que não existia forma educada de destruir o mundo de alguém.

Ela estava dormindo.

Parecia estar em um sono profundo, sereno demais para quem estava prestes a acordar para o pior dia da própria vida. Observei sua respiração calma, o rosto relaxado, os cabelos espalhados pelo travesseiro. Por um segundo covarde, desejei que ela não acordasse. Que o tempo congelasse ali. Ou talvez fosse apenas minha covardia inventando desculpas para não encarar a realidade dos fatos.

Sentei na beira da cama.

Diferente da outra vez, não havia urgência carnal, nem impulso. Apenas culpa. Acariciei o rosto dela com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la. Passei os dedos pelos lábios, pela linha suave do maxilar, pelo contorno dos olhos fechados. Decorei cada detalhe do seu lindo rosto antes de eu transformá-lo em dor.

Porque eu sabia: depois daquela conversa, nada mais seria igual.

— Júlia?

Chamei, com a voz mais baixa do que pretendia.

Ela se mexeu levemente, virou o rosto para o outro lado e continuou dormindo. Aquilo me dilacerou. Parte de mim queria aceitar aquela recusa inconsciente como um sinal para ir embora.

— Júlia, acorde.

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