Quando atravessei a porta da suíte do harém, senti o peso da realidade cair sobre mim como um manto pesado demais para ser retirado. O silêncio do corredor ficou para trás, substituído por um ar denso, carregado de tensão. Laura estava sentada na cama, com a postura rígida, as mãos apoiadas sobre o colo como se tentasse se manter inteira à força. Seus olhos estavam vermelhos. Não era difícil perceber que ela havia chorado antes de eu chegar.
Ainda assim, ao me ver, ela se levantou quase no mesmo instante, como se a dor tivesse sido interrompida por uma urgência maior. A urgência de falar comigo. De arrancar respostas. De confirmar medos que ela já carregava antes mesmo de eu cruzar aquela porta.
— E então. Como foi?
Perguntou, sem rodeios.
A forma direta como ela falou me fez entender que, para ela, eu não era uma pessoa. Eu era um acontecimento. Um risco. Uma variável fora de controle.
Eu não iria falar dos detalhes. Não para alguém que não me queria ali. Laura era esposa dele. Tinha um título, um lugar reconhecido. Eu, por outro lado, era apenas a mulher que havia ocupado um espaço que nunca foi destinado a mim. Uma distração conveniente. Um instrumento.
— Foi do jeito normal.
Respondi, escolhendo as palavras com cuidado.
— Aconteceu, e pronto. Foi isso.
Ela me observava como quem tenta ler algo nas entrelinhas, como se minha expressão pudesse traí-la. Caminhou alguns passos pelo quarto, respirando fundo, antes de parar novamente à minha frente.
— Tá, mas ele não desconfiou de nada?
— Não, Laura. Eu fiz do jeito que você pediu.
Falei, desviando o olhar.
Não foi difícil perceber a mudança no ar. Ela me encarou por alguns segundos a mais, como se estivesse avaliando algo que não queria admitir nem para si mesma.
— Você… você gostou.
Disse, agora com a voz um pouco mais alta.
Aquilo não era uma pergunta. Era uma acusação.
Meu estômago se revirou. O impulso imediato foi negar, não por estratégia, mas por vergonha. Vergonha de mim mesma. Vergonha de admitir, ainda que em pensamento, que algo dentro de mim havia reagido de uma forma que eu não planejei.
— É claro que não. Você está maluca?
Menti.
A mentira saiu rápida demais. Ensaiada demais. Como se eu já tivesse previsto aquela pergunta.
Na verdade, eu estava profundamente envergonhada por ter gostado de estar com o marido dela. Não apenas do momento em si, mas da forma como fui tratada. Do cuidado. Da atenção. Do silêncio respeitoso que havia mais do que qualquer palavra dita.
Laura deu dois passos largos na minha direção. Antes que eu pudesse reagir, suas mãos estavam nos meus braços, apertando com força suficiente para me fazer prender a respiração. Seus olhos estavam arregalados, brilhando de raiva e medo.
— Você não vai desistir de ir embora, não é?
Perguntou, sacudindo levemente meus braços.
— Você não vai querer atrapalhar a minha vida. Vai?

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