Percebi que precisava me afastar do corpo dela antes que a razão fosse completamente engolida pelo impulso.
Permaneci alguns minutos a mais, sentindo o peso suave de Júlia contra mim, como se aquele contato silencioso fosse uma tentativa inconsciente de prolongar algo que jamais deveria ter acontecido daquela forma. Havia calor, havia respiração descompassada, havia um vínculo recente demais para ser entendido e perigoso demais para ser ignorado.
Por fim, respirei fundo e toquei de leve nos ombros dela, a chamando de volta à realidade que nos aguardava do lado de fora daquela porta.
— Eu sinto muito em te dizer isso, mas você precisa voltar para o harém.
As palavras soaram mais duras do que eu pretendia. Não por falta de cuidado, mas porque parte de mim ainda estava presa àquele instante, lutando contra a necessidade de fazer o que era certo. Júlia não respondeu de imediato. Em vez disso, me abraçou com força, como se o amanhecer fosse trazer uma separação definitiva.
— Eu tenho mesmo que ir? Murmurou.
— Já está tarde… e é muito improvável que a Laura entre por essa porta.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar pensamentos que insistiam em se atropelar.
— Você pode estar certa.
Admiti.
— Mas não quero arriscar. Já fomos longe demais esta noite. Pela manhã, você será oficialmente minha esposa. Então, nada mais precisará ser escondido. Poderemos ficar juntos sem medo.
Ela se afastou devagar, me observando com um sorriso discreto, quase provocador, e então se levantou da cama. Caminhou alguns passos e parou, apontando com o olhar para o lençol manchado de sangue.
— Você vai precisar trocar isso.
Assenti com a cabeça, acompanhando o gesto.
— Não se preocupe. Darei um jeito. Agora vá se lavar.
Ela entrou no banheiro sem discutir. O som da água caindo ecoou pelo quarto, preenchendo o espaço que antes era ocupado por sua presença. Apoiei as mãos na beirada da cama e encarei o vazio por alguns segundos. O silêncio parecia mais alto agora.
Foi ali, sozinho com meus pensamentos, que cometi o erro de subestimar o que havia acontecido. M convenci de que não seria difícil conquistar o coração de Júlia. Afinal, fora ela quem atravessara corredores proibidos, quem se expusera a riscos reais para estar ali comigo. Aquilo só podia significar aceitação… talvez até o início de algo mais profundo.
Ignorava, naquele momento, o quanto o desejo pode se disfarçar de escolha quando o desespero se mistura à necessidade.

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