Laura havia falado em prazos, e aquilo ficou martelando na minha cabeça como um aviso tardio. Prazos sempre foram a minha especialidade. Eu os estabelecia, eu os cumpria, eu os fazia valer. No entanto, naquela confusão toda, eu havia permitido que o desejo falasse mais alto do que a razão, e isso era imperdoável.
Júlia havia atravessado minhas defesas sem pedir licença, não pela astúcia, mas pela combinação perigosa de vulnerabilidade e beleza. Eu baixei a guarda e agora pagava o preço.
Sentado no escritório, observei por longos minutos as linhas perfeitas da mesa, os objetos dispostos com precisão quase cirúrgica. Tudo naquele ambiente existia para me lembrar de quem eu era, um homem acostumado a controlar impérios, decisões, destinos.
Não uma marionete sendo puxada por emoções que eu deveria dominar. Respirei fundo. Aquela desordem precisava acabar. E, para isso, eu precisava reconstruir meus muros, um por um.
O primeiro passo seria Carolina.
Peguei o telefone com calma, embora por dentro a raiva estivesse fervendo.
Não era uma fúria explosiva; era fria, calculada, daquelas que não tremem a voz. Disquei o número e não me surpreendi quando ela atendeu quase de imediato. Carolina sempre teve um radar apurado para oportunidades e para riscos.
— Sheik?
A voz dela soou doce demais, artificial demais.
— Como está indo com a sua nova aquisição?
Fechei os olhos por um segundo. Aquela palavra, aquisição, trouxe a tona tudo o que eu sentia por ela naquele momento: desprezo. Controlei a respiração antes de responder. Não lhe daria o prazer de perceber o quanto havia me irritado.
— Carolina, serei breve.
Comecei, com a voz firme.
— Escute com atenção. Você tem duas horas para devolver todo o dinheiro que eu lhe transferi e para enviar o encerramento formal do contrato que assinamos.
Houve um silêncio curto do outro lado da linha, seguido por uma risada contida, quase condescendente.
— Ah, mas isso é simples.
Ela respondeu.
— Basta você pagar a multa de quebra de contrato. Terei o maior prazer em encerrar tudo e mandar buscar a minha mina de ouro.
A menção a Júlia daquela forma fez algo estalar dentro de mim. Abri os olhos e encarei o reflexo no vidro da janela. O homem que me olhava de volta não aceitava mais jogos.
— Júlia está livre.
Declarei, sem rodeios.
— No acordo que você fez com ela, o que a mantinha presa era a dívida do hospital. Dívida essa que eu quitei integralmente. Você realmente achou que eu não descobriria?
O silêncio agora foi mais longo. Quando Carolina voltou a falar, sua voz já não tinha a mesma segurança.
— Ela ainda me deve.

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