Saí do harém com a sensação de que o ar havia ficado mais pesado do que o normal.
Não era apenas o calor do deserto atravessando os corredores de mármore do palácio, era algo mais denso, mais íntimo. Uma inquietação que não me abandonava desde o momento em que vi Laura perder completamente o controle e quando soube da fraude que Carolina havia cometido.
Eu precisava ligar para a Carolina.
Precisava do meu escritório. Precisava, acima de tudo, recuperar a autoridade que sempre foi natural em mim e que, ultimamente, parecia escorrer pelos dedos.
Mas não cheguei longe.
Laura estava no meio do corredor, parada como se tivesse sido colocada ali de propósito para me interceptar. O porte ereto, as mãos unidas à frente do corpo, o rosto perfeitamente composto. Aquela calma… aquela calma nunca era um bom sinal.
— Por favor, Laura. Agora não. Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.
— Você não acha que já me desrespeitou o suficiente hoje? Desde quando você se acha no direito de passar por cima de uma decisão minha?
Ela não se moveu. Não elevou o tom. Não demonstrou raiva. E isso, curiosamente, me deixou mais alerta do que qualquer escândalo.
— Tudo bem, Al Rashid.
Respondeu com suavidade.
— Se você quer assim, não vou mais interferir nas suas escolhas.
Aquilo me pegou desprevenido.
Segundos antes, ela estava fora de si, disposta a destruir Júlia, a expor nosso nome, a me ameaçar com denúncias que jamais deveriam sair da boca de uma esposa. E agora… agora parecia resignada. Serena demais.
— O que você está aprontando? Perguntei, estreitando os olhos.
Ela arqueou levemente a sobrancelha, como se a pergunta fosse quase ofensiva.
— Eu? Nada.
Respondeu.
— Seja feita a sua vontade, Sheik.
Foi ali que senti um arrepio percorrer minha espinha.
De todas as reações que eu esperava de Laura, aquela era a mais perigosa. O silêncio dela sempre foi mais cruel do que qualquer grito. Laura não era uma mulher impulsiva por natureza. Quando parecia ceder, era porque já havia decidido algo. E geralmente, algo irreversível.
Ela deu as costas para mim e começou a caminhar pelo corredor com passos tranquilos, como se tivesse acabado de aceitar uma derrota que, no fundo, não parecia derrota nenhuma.
— Espere.
Ordenei.
Ela parou e se virou devagar. O rosto indecifrável. O olhar ainda duro, frio, distante.
Eu precisava provocá-la. Precisava arrancar qualquer reação que me desse pistas do que se passava naquela mente.
— Vou me casar com Júlia em poucos dias.
Observei cada músculo do rosto dela. Cada respiração. Cada mínima reação.
Nada.
— Tudo bem.
Disse simplesmente.
— Como eu disse, faça o que você quiser.
E novamente virou-se para ir embora.
Meu sangue ferveu.
— Não mandei você sair.

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