O silêncio voltou como um tapa. Um lembrete afiado de que o único motivo de Júlia estar sentada no carro, respirando o mesmo ar que eu, era porque eu estava obrigando. Porque eu era a única força mantendo ela ali. E, por mais que eu odiasse admitir, aquela constatação me incomodava de um jeito que eu não sabia administrar.
Eu odiava a sensação de incômodo. Odiava sentir qualquer coisa que não fosse certeza, controle ou domínio. Sentir desconforto por causa de uma mulher era, para mim, uma das maiores humilhações que eu poderia experimentar.
Mas, apesar disso, a sensação de poder sobre ela ainda vencia todas as outras. Ainda se impunha como o pilar mais sólido dentro de mim.
Olhei para ela novamente. Ela estava com o queixo erguido, tentando fingir força, tentando fingir que não tremia por dentro. E aquela teimosia, aquela coragem incompreensível, me inflamava.
Sem desviar os olhos, ordenei que tirasse a roupa.
Não pedi. Não sugeri. Ordenei.
A ordem saiu da minha boca não apenas para impor a minha vontade, mas para satisfazer um desejo que crescia dentro de mim desde o momento em que abriu a porta do elevador e ousou enfrentar minha autoridade outra vez.
Eu queria vê-la. Queria expor sua fragilidade. Queria que ela se acostumasse tanto com meus olhares, com minhas ordens, com meu domínio, que um dia… não quisesse saber de olhar algum que não fosse o meu.
Sim, era loucura. Eu sabia disso. Mas minha sanidade tinha escapado das minhas mãos no dia em que Júlia virou os olhos para mim pela primeira vez.
Ela se recusou. Claro que se recusou.
Mas logo se lembrou da realidade:
Ela não tinha vontade própria.
Não enquanto estivesse sob minha guarda. Não enquanto meu nome fosse a única coisa mantendo sua vida segura naquele país que ela mal conhecia.
Com movimentos lentos, pesados de resistência, Júlia começou a tirar a roupa.
E eu observei.
Observei como se estivesse assistindo a algo sagrado, poderoso, proibido. Observei como quem sabe que está diante de algo de valor incalculável, mas que ainda não lhe pertence. Não completamente.
Cada peça que caía no banco, parecia arrancar um pedaço da minha razão.
Até que ela estava ali.
Nua.
Frágil.
E ao mesmo tempo inexplicavelmente forte.
O corpo dela, perfeito de um jeito que beirava a tortura, fazia meu mundo inteiro perder o foco. Minha vida, meus negócios, meus decretos, meus impérios… tudo se reduzia ao espaço milimétrico entre nós.
E então eu pedi para que ela abrisse as pernas.
Ela hesitou por um segundo, mas obedeceu. Sempre obedecia, mesmo que fosse por obrigação. Mesmo que me odiasse inteira. Mesmo que seu peito subisse e descesse num ritmo nervoso que eu conseguia perceber mesmo no escuro.
E foi ali que eu vi.
Os pêlos.
Pequenos, quase imperceptíveis para qualquer outro homem.
Mas para mim… eram um gatilho.
Um golpe.
Uma lembrança enfiando as unhas na minha mente.
Um passado que eu me recuso a tocar.
A voz que eu me recuso a ouvir.
O rosto que eu jamais permiti que voltasse à superfície.
Minha respiração mudou. Meu corpo enrijeceu.

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