SHEIK
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Entramos no elevador, e o silêncio entre nós parecia feito de ferro. Pesado. Inquebrável. Júlia mantinha os braços cruzados, o olhar preso ao painel de números, como se aquela simples luz vermelha pudesse salvar ela de mim. Eu, por outro lado, não tinha nada a dizer. As palavras sempre foram uma ferramenta para controlar, para ordenar, para impor. Nunca para explicar. Explicações criam brechas. E com Júlia, qualquer brecha poderia virar um terremoto.
Quando as portas se abriram e caminhamos até a recepção, percebi que ela diminuiu o passo. Parou. Ficou ali, como se tivesse cravado os pés no chão. Virei para ela, irritado, e perguntei o motivo dela ter parado, até que vi seus olhos, observadores, firmes. E percebi que vinha pergunta.
Não era qualquer pergunta.
Aquela que eu sempre temi ouvir um dia, mas que nenhuma mulher jamais teve coragem ou inteligência o suficiente para formular.
“Por que não tem hóspedes aqui?”
Eu sabia que, cedo ou tarde, ela perceberia. Júlia não é burra. Não é cega. Não é como as outras, que observavam apenas o brilho dos lustres, o mármore no chão, a elegância dos uniformes, acreditando que estavam em um hotel reservado para ricos, não, ela enxergava o que não era dito. O que não era mostrado. E isso sempre foi o que mais me irritou e ao mesmo tempo, o que mais me prendia nela.
Eu tentei desconversar, mas Júlia tinha o dom de não se intimidar com minhas respostas afiados. Insistiu. Pressionou. Como se tivesse o direito de saber sobre mim.
E isso, eu jamais permitiria.
Eu conheço muito bem as leis que governei por tantos anos. Eu mesmo assinei decretos que garantiam minha privacidade, minha reputação. Eu sei exatamente o peso que meu nome carrega e sei, também, quantos olhos estão prontos para me ver ruir se eu tropeçar uma única vez. Uma vez.
Aquele hotel, como ela ousou questionar, é um dos meus refúgios mais discretos. Um local onde eu recebo mulheres que eu escolho, quando quero. Sem testemunhas, sem riscos, sem histórias e sem consequências. Tudo perfeitamente calculado para que ninguém jamais associe meu nome a escândalo algum.
E ali estava Júlia. Olhando para mim como se estivesse prestes a desvendar o segredo mais precioso da minha vida.
Eu a ameacei. Claro que ameacei. O problema é que, ao contrário das outras mulheres, que tremiam como folhas ao menor levantar da minha voz… Júlia ergueu o rosto. Bateu de frente. Ali. Bem ali. Na frente dos meus funcionários.
Ela tinha ousadia, insanidade, mas também uma atitude mortal.
Qualquer outra já teria sido arrastada para longe e desaparecido do mapa, sem deixar sequer um sussurro para trás. Eu sempre gostei de disciplina. Ordens cumpridas, silêncio.
Júlia, porém, nunca me deu isso. E ainda assim ou exatamente por isso, eu não consegui agir como deveria. Não consegui puni-la ali. Talvez porque, de alguma forma estranha, meu corpo inteiro estivesse programado para reagir a ela de maneira diferente de qualquer outra mulher.
Eu estava irritado. Sim. Mas também curioso, tentado e preso.

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