Eu sempre fui um homem equilibrado.
Calmo.
Racional.
Do tipo que observa o tabuleiro inteiro antes de mover uma única peça.
Sempre foi assim.
Mas desde que Júlia entrou na minha vida, ou melhor, desde que eu a arrastei até aqui, sem pedir permissão a ninguém, as minhas bordas começaram a desmoronar. A minha precisão desapareceu, minha lógica cedeu espaço a impulsos que eu desconhecia, e o controle absoluto que sempre foi minha marca… começou a se tornar uma farsa.
Eu sabia disso.
E, mesmo percebendo, não fiz nada para impedir.
O certo seria esperar Laura voltar.
O certo seria conversar com ela.
Informá-la da chegada da nova concubina, era esse o termo que eu usaria, e administrar o impacto emocional que isso causaria.
Era o que um homem sensato faria.
Mas eu não era sensato naquele dia, nem estava sendo na última semana.
Eu simplesmente peguei as chaves do carro, dei ordem para prepararem minha escolta, e fui buscar Júlia no hotel sem avisar ninguém.
Por quê?
Nem eu sei ao certo.
Talvez porque ficar sem tocar o corpo dela estava acabando comigo. Era uma necessidade que eu tinha.
Ou talvez , e essa é a verdade que eu não queria admitir, porque eu precisava tirá-la de lá antes que algo ou alguém interferisse de novo.
Cheguei ao hotel sem trocar cumprimentos, sem sorrir, sem olhar para nenhum funcionário.
Segui direto para o elevador.
A porta da suíte estava destrancada, Nádia sempre deixava assim para facilitar minha entrada.
Quando abri, vi Júlia.
E por um segundo, apenas um, o ar pareceu falhar nos meus pulmões.
Ela estava sentada na beira da cama, os ombros curvados, o rosto pálido.
Os olhos…
Fundos, inchados, vermelhos.
A expressão quebrada de alguém que passou muito tempo sufocando o próprio coração.
Eu deveria ter reagido com compaixão.
Ou com preocupação.
Ou ao menos com algum traço de humanidade.
Mas eu fiz o oposto.
Fingi não ver.
Fingi que não me afetava.
Fingi que não importava.
Apontei para a mala dela.
— Pegue suas coisas.
Minha voz saiu firme demais, quase cortante.
— Vpi tirar você daqui.
Ela não se moveu.
Ficou imóvel.
Como uma estátua.
Como se meu comando não tivesse sido ouvido… ou pior, como se não tivesse relevância alguma.
Ergui o queixo, irritado.
Reforcei, dando um passo à frente. Perguntei se ela não estava me ouvindo.
Ela levantou o rosto devagar.
Os olhos brilhavam de lágrimas não derramadas.
E me respondeu:

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