Dormir na suíte do harém foi uma decisão extrema, mas naquele momento, era o único lugar onde eu poderia ter um mínimo de silêncio.
Se eu voltasse para o meu quarto, Laura iria começar com seu show diário, e eu não tinha forças para lidar com mais nenhuma cobrança, drama ou chantagem emocional. Eu precisava respirar. Precisava de distância. Precisava reorganizar meus próprios pensamentos antes que tudo desmoronasse de vez.
Mas mesmo ali, envolto pelo silêncio profundo daquele setor reservado do palácio, o sono não veio como deveria. Quando finalmente peguei no sono, foi leve… quase um cochilo. Parecia que minha cabeça não conseguia desligar. A bagunça que estava a minha vida era tanta, que nem mesmo um homem cercado de luxo, poder e silêncio conseguia repousar.
Quando abri os olhos, o dia ainda estava nascendo. Aquela luz alaranjada e tímida atravessava as cortinas e me avisava que eu teria que levantar.
Espreguicei os ombros, sentindo o peso da noite mal dormida. Tinha a sensação de que eu não havia descansado nada.
Tomei um banho rápido na suíte, vesti uma roupa leve e elegante como sempre, e saí. Enquanto caminhava pelo harém, agradeci mentalmente ao ver que todas as concubinas ainda estavam dormindo.
A última coisa que eu queria era conversas, perguntas ou olhares curiosos. Samirah havia sido discreta, eficiente e respeitosa na noite anterior, como sempre era, mas eu não queria prolongar qualquer contato.
O que eu fiz ali era pura fuga, nada além disso.
Quando entrei no corredor principal do palácio, tudo já estava em pleno movimento. Servos, caminhavam de um lado para o outro, cada um cuidando de sua função. O palácio acordava cedo, muito antes de seus donos.
Um deles me avistou imediatamente.
— Senhor, bom dia.
— Bom dia. Laura já acordou? Perguntei, com uma ponta de receio pela resposta.
— Não, senhor.
Soltei o ar, aliviado. Ótimo. Isso me dava tempo.
Caminhei direto para o meu escritório, o meu refúgio dentro daquele castelo de turbulências. Fechei a porta atrás de mim, liguei o notebook e me preparei para a primeira paulada do dia.
E ela veio rápido.
Na caixa de entrada, estava lá, o documento enviado por Carolina.
O contrato.
Cliquei para abrir e comecei a ler, linha por linha, sem pressa. Eu queria entender exatamente até onde aquela mulher estava tentando ir e o que ela queria arrancar de mim.
Logo no início, lá estava a frase que já me fez soltar um suspiro pesado:
“A contratada, Júlia..., ficará sob posse, proteção e responsabilidade direta do contratante pelo período de 12 meses, sendo obrigada a atender às necessidades e solicitações do mesmo, de acordo com sua disponibilidade e conveniência.”
Posse. Proteção. Responsabilidade.
Eu sabia o que aquilo significava. Carolina não queria escrever “ela será sua”, porque não podia. Então usou o máximo que a lei permitia para amarrar Júlia a mim.
Continuei.
“Durante o período estipulado, a contratada deverá residir integralmente no território indicado pelo contratante, não podendo regressar ao Brasil antes do término do contrato, salvo em caso de emergência médica comprovada.”
Claro. Isso ela fez para garantir que Júlia não escapasse.

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