O caminho até o palácio pareceu mais longo do que o normal, como se o universo estivesse deliberadamente tentando testar minha paciência. O motorista mantinha silêncio absoluto, o que eu apreciava. Eu não estava no estado de espírito adequado para tolerar qualquer ruído que não fosse o da minha própria respiração pesada.
Assim que o carro parou diante da entrada principal, desci sem esperar que alguém abrisse a porta para mim. Caminhei pelos corredores iluminados com lâmpadas amareladas que projetavam sombras longas pelas paredes. Era tarde, e quase todos já dormiam. Quase todos… menos quem não deveria estar acordado.
Eu estava com um único propósito, chegar ao escritório, pensar, planejar, agir.
Mas, a poucos passos da porta do escritório, ouvi um som abafado. Algo como gavetas sendo abertas e fechadas. Um barulho leve, ritmado, mas claramente indevido.
Meu passo cessou por completo. Inclinei o corpo devagar, aproximando o ouvido da madeira maciça. O som continuou. Alguém mexia nas minhas coisas e ousava fazer isso dentro do meu espaço.
O atrevimento parecia ser contagioso naquele maldito dia.
Segurei a maçaneta e empurrei a porta com força, fazendo ela bater contra a parede. O impacto ecoou no ambiente e, no mesmo instante, vi Laura pular de susto, parada diante da minha mesa.
Ela congelou, olhos arregalados, a mão ainda dentro de uma gaveta que ela tentou fechar às pressas.
— O que você está fazendo aqui? A minha voz saiu baixa, mas o veneno nela era evidente.
— O que você quer vasculhando as minhas coisas?
Ela ficou muda por alguns segundos. Tempo o suficiente para o ambiente ficar pesado, sufocante. Eu cruzei os braços e esperei.
— Responda.
Repeti, desta vez com firmeza.
Laura engoliu seco antes de falar, a respiração trêmula.
— Eu… eu estava procurando algo que justificasse o motivo de você sair tarde da noite outra vez…
A audácia.
Dei alguns passos lentos em direção a ela, e pude sentir a tensão aumentar com cada centímetro que eu me aproximava. Laura apertou os lábios, mas não recuou. Não ainda.
— Tire a roupa.
Ordenei, sem desviar o olhar.
Ela piscou, confusa, mas respondeu com uma firmeza que nãodeveria usar comigo.
— Não.
O “não” dela soou mais ofensivo do que qualquer grito.
— Você acha que pode vir aqui me pedir satisfações...
Falei, aproximando o rosto do dela..
— Quando não cumpre com suas obrigações? Acha mesmo que tenho algum motivo para lhe dar explicações?
Agarrei seu queixo com força, fazendo ela erguer o rosto para mim. Os olhos dela lacrimejaram de imediato, mas não desceu nenhuma lágrima. Laura era orgulhosa demais para chorar na minha frente.
— Você quer saber onde eu vou tarde da noite?
Continuei, envenenando cada sílaba.
— Fui atrás de outro buraco para me saciar.

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