Na manhã seguinte, meu corpo parecia ter sido atropelado pelo próprio destino. Eu acordei com os olhos ardendo, a garganta seca e uma exaustão que não vinha só da falta de sono, vinha da falta de esperança.
Mas eu não tinha mais o direito de fraquejar.
Eu precisava trabalhar. Eu precisava pagar minha dívida. Eu precisava salvar minha mãe.
Fui para o banheiro como quem se arrasta para o campo de execução. Entrei na banheira e me submergi, tentando afogar a angústia, mas ela sabia nadar melhor do que eu.
Quando saí, enrolei a toalha no corpo e encarei meu reflexo. Eu tinha olheiras profundas, olhos sem brilho, boca trêmula.
— Vamos, você consegue.
Menti para mim mesma.
Passei maquiagem até esconder tudo o que doía. Me vesti como se pudesse vestir coragem também. E quando me senti minimamente apresentável, liguei a câmera e regravei o vídeo para Carolina.
— Eu, Júlia A…, confirmo que li e aceito todos os termos do contrato. Estou ciente das condições e totalmente de acordo.
Sem lágrimas.
Sem tremor.
Sem alma.
Enviei.
A resposta veio como um tiro...
“Esse está perfeito.
Acordo selado.”
De algum jeito, aquelas duas palavras, acordo selado, pareceram mais pesadas do que qualquer sentença judicial.
Mas eu ainda tinha algo a dizer.
Digitei com os dedos firmes,ou fingindo firmeza...
“Quero que você crie um plano para que a dívida que tenho com você seja paga no máximo em um ano.
Não importa quantos trabalhos eu tenha que fazer ou com quem eu tenha que sair.”
A resposta foi instantânea...
“Ótimo. Então se prepare, pois isso será desgastante e cansativo para você.”
Eu encarei a tela por alguns segundos.
Desgastante.
Cansativo.
Ela não fazia ideia.
Mas pela primeira vez em muito tempo, eu estava tentando tomar as rédeas da própria vida. Mesmo que isso significasse dirigir direto para o inferno.
Estava respirando fundo, repassando mentalmente minha nova realidade, quando ouvi as batidas na porta.
Toque firme. Impaciente.
— Júlia, abra a porta. Sou eu, Nádia.
O aviso fez meu estômago gelar. A visita sem convite tinha cheiro de problema.
Respirei antes de destrancar a porta.
Nádia entrou com a postura de quem já sabia de tudo. Jogou a bolsa na poltrona com força e se virou para mim com um olhar que misturava frustração e medo.
— O que você fez, Júlia?
A voz dela soou como um tapa.
Eu pisquei, confusa.
— A agência não preparou você para lidar com um homem poderoso como o Sheik? Você tem ideia de como ele pode usar o poder dele contra você?
— Por que ele faria isso, Nádia? Respondi, tentando manter a calma.

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