— Achei que esse sonho duraria para sempre. Até... adoecer, até descobrir os fatos.
Wilma Lacerda proferiu aquilo com pacatez.
— Em princípio, eu senti a injustiça e indignei-me pela provação, os infortúnios mórbidos, no exato tempo que carecia de um amor de mãe. Ouvi que fui negada.
— Após os primeiros momentos, fui rendida pelo receio. Tive medo de ser deixada pela mãe e pelo não reconhecimento familiar. Eu fui reduzida a isso. E meus pais biológicos... argh, eles deram as caras pra você, eles não fariam a menor falta para o mundo.
— Mais tarde, chegou este instante em que eu vivo. — Os lábios da mulher tremeram.
— A rotina acamada num colchão de clínica com o odor antisséptico empesteando, as vigas tortas no teto e o sacrifício medicinal, eu precisei encobrir e viver. A mãe avisou sobre a mudança do país logo depois de receber as altas médicas, a família daria um amparo financeiro à minha vida e ao meu bem-estar.
— Era previsível que seria a melhor resolução. Eu fui abençoada pela minha mãe, admito. Ela não me deserdou porque não foi quem me gerou, na realidade prestou auxílio sem pensar duas vezes. Tenho certeza de que não posso reclamar mais nada.
— O meu problema... é a tristeza.
No meio da conversa, os olhos fixaram-se na figura de Bianca. Ela expunha tanto a observação quanto um forte interesse.
— A visita de hoje não intencionava tirar suas explicações, menos ainda provocar um tumulto. O motivo principal... foi conhecer e ver quem é que usufruía desta herança e destas honrarias.
— Adicionalmente... conversar estas intimidades. Tudo foi contido dentro de mim há eras e faltou em quem confiar.
— Eu tive conhecimento de que você pisou nesta terra novamente. Pensei numa probabilidade de você me ouvir. Ora, você era a chave desse conhecimento. O sentimento, todo carinho que nutri de graça por duas décadas... seu direito genuíno.
Bianca auscultava no silêncio.
Antes, ela ficava encurralada pelo que ouvia.
As presenças imprevistas de Wilma Lacerda causaram incertezas a ela.
Só que no jeito de conversar da mulher não existia animosidade ou desaforo, o que se destacava era uma falta de clareza e desejo contido no coração.

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