Renato Faria estava com sua filha Cici; ela ia à creche durante a semana, e nos fins de semana tinha atividades marcadas com Elisa Lemos, então ele só conseguia passar um ou dois dias livres por mês com a menina.
Por isso, era de se imaginar que ele não estava com cabeça para resolver as dúvidas de Marcelo.
Marcelo olhava pela janela, perdido em pensamentos.
Ao ouvir a porta abrir, ele virou o rosto, viu que era ela: — Precisa de algo?
— Sim. — Bianca assentiu, caminhou até a mesa, apoiou as duas mãos na beirada, inclinou-se um pouco para a frente e olhou nos olhos dele.
— Vamos conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre o motivo de você estar estranho desde à tarde. — Bianca foi direto ao ponto.
Os longos cílios de Marcelo tremeram de leve.
— Não estou estranho.
— Está sim. — Bianca deu a volta na mesa e parou na frente dele.
— Foi por causa do rapaz no meu escritório à tarde, não foi?
Marcelo não disse nada, mas a mudança em seu olhar confirmou as suspeitas de Bianca.
— Marcelo — a voz de Bianca suavizou, misturando conformismo e diversão —, aquele é meu primo, Silas Ribas, sobrinho do meu pai. Ele é dois anos mais novo que eu, nós crescemos juntos, é como se fosse um irmão de sangue.
— Primo?
— Sim, primo. — Bianca confirmou com a cabeça. — Ele veio me procurar à tarde para que eu o ajudasse com os designs da nova coleção.
Ela parou, olhou nos olhos de Marcelo com um tom sério.
— Aquele 'Lembre-se de pensar em mim' que ele disse quando saiu é um costume dele desde criança, não tem outro sentido. E a personalidade dele é assim mesmo: agitado, atencioso com todos e sociável.
O corpo tenso de Marcelo relaxou um pouco.
— Então — Bianca inclinou a cabeça —, Senhor Amaral, à tarde você estava com... ciúmes?
Marcelo desviou o olhar e tossiu.
— Não estava.
— Não estava? — Bianca arqueou a sobrancelha e estendeu a mão para cutucar o peito dele. — Se não estava, por que você agiu de forma esquisita a tarde toda? Por que nem comeu direito? Por que se trancou no escritório logo que chegou?
Marcelo pegou a mão dela e segurou.
Sua mão estava bem quente, e ele esfregou as costas da mão dela.
— Bianca.
— Hum?
— Nós — Marcelo hesitou, escolhendo as palavras — casamos por causa do acordo comercial.
— Eu sei. — Bianca assentiu, sem entender por que ele puxou esse assunto chato agora.
— Em muitos casamentos assim, cada um vive a sua vida. — Marcelo olhou para ela com olhos escuros que refletiam uma emoção que Bianca não conseguia decifrar.

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