— Bianca, eu quero te falar e te avisar. Eu sei que você e meu tio são muito carinhosos e que ele te trata muito bem, tão bem que todos acham que ele te ama de verdade, que não vive sem você.
— Mas — ele fez uma pausa — Bianca, você conhece mesmo o Marcelo? Você acha mesmo que ele se casou com você porque te amava até perder a cabeça?
A testa de Bianca franziu-se por um momento, mas a expressão dela não mudou, e ela apenas ficou olhando para ele em silêncio.
— Ele já te disse por que se casou com você?
A voz de Felipe Amaral era persuasiva.
— Foi só porque a avó forçou o casamento? Foi só porque era conveniente? Poderia ser porque... você se parece com alguém?
O coração de Bianca falhou uma batida.
Mas ela continuou inabalável, sequer vacilou o olhar.
— Felipe Amaral, o que você quer dizer? Esse truque de semear discórdia é muito chato e baixo.
Felipe Amaral parecia ter captado aquela leve mudança no tom de voz dela.
— Marcelo sempre teve uma pessoa no coração. Uma pessoa que ele gosta há muitos anos.
— Essa pessoa está muito bem escondida no coração dele. Ele só mencionou isso uma vez, quando ficou bêbado há muitos anos. Há poucos dias encontrei alguém que estava lá na época e soube disso. Queria te contar na hora.
— Ele pode ter se casado com você por muitos motivos. Mas, Bianca, você ousa apostar que não houve nem um pouco de... influência por causa da sombra daquela mulher em você?
O vento frio passou pela fenda entre os prédios e levantou algumas folhas secas no chão, produzindo um som de farfalhar.
Bianca ficou parada ali. O sol da tarde de inverno batia nela e delineava a sua silhueta quieta.
Sua expressão não sofreu alteração.
Ela queria rebater Felipe Amaral, mas não conseguia se lembrar por que se casara com Marcelo.
Por que tantas memórias tinham voltado.
Só as relacionadas a Marcelo voltavam tão devagar e em tão pouca quantidade.

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