Ele soltou a mão de Bianca devagar e se levantou. Por ter ficado muito tempo sentado e sem descansar, sua visão escureceu por um instante, e ele segurou a grade da cama para se estabilizar.
— Cuidado. — Patrícia olhou para ele com preocupação.
— Não foi nada. — Marcelo balançou a cabeça e foi para a sala de fora.
O assistente abriu as lancheiras uma por uma.
A comida era bem simples: peixe no vapor, brotos cozidos, sopa de costela com inhame e um potinho de pera cozida com açúcar cristal. Tudo bem leve e fácil de digerir.
Não havia banquetes nem brindes. Na sala externa do quarto do hospital, os três se sentaram em silêncio.
— A Bianca acordou agora a pouco. Disse que lembra de mim, lembra que somos casados e que nos amamos muito. Mas ela não consegue lembrar dos detalhes, e a cabeça dói quando ela tenta forçar. — Marcelo pegou os hashis e falou baixo para Patrícia e Gabriel.
O movimento de Patrícia para pegar a comida travou. Se as lembranças com Marcelo já estavam confusas, e as sobre ela?
A filha ainda se lembrava dela?
— Não dá para ter pressa com a memória. A Dra. Elisa já disse, precisa ser um passo de cada vez.
Marcelo apenas soltou um "hum", abaixou a cabeça e continuou a comer devagar.
Aquela não foi uma ceia de Ano Novo feliz: não houve risadas nem clima de festa.
Mas os três sentados em volta daquela mesinha, vigiando a parente que dormia no quarto e que havia acabado de ser salva da morte, sentiam o alívio de quem sobreviveu a um desastre, além de uma gratidão cautelosa.
— Ah, e a Vovó Lúcia... — Marcelo perguntou a Patrícia, lembrando-se da situação.
Nos últimos dias, ele não teve cabeça para pensar em mais nada. Quem estava cuidando da Vovó Lúcia era Patrícia.
— Eu falei com a cuidadora no telefone. Ela disse que a avó não percebeu nada de errado, só acha que você e a Bianca estão trabalhando muito e viajando a negócios nestes dias. O estado de saúde dela está ótimo. — Patrícia respondeu.
Marcelo assentiu. Se a avó estava bem, Bianca teria menos motivos para se preocupar.
A ceia simples de Ano Novo acabou rápido.
O assistente tirou a mesa e ainda teve a delicadeza de preparar e trazer um bule de chá de flores calmante.
Marcelo tomou um gole de chá e olhou a hora. Passava das onze e quarenta da noite.

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