O coração de Marcelo parou por um instante, suas mãos se cerraram sozinhas e ele até prendeu a respiração.
— Ele é... o Marcelo.
Bianca finalmente falou. A voz ainda estava fraca, mas ela pronunciou o nome dele com clareza.
O jeito como ela olhava para ele passou da confusão inicial para uma sensação de dependência e alívio.
— Sim, sou eu. — Marcelo soltou um suspiro pesado de alívio, com a voz embargada.
A Dra. Elisa observou a reação dela e continuou perguntando: — O que ele é seu?
Bianca demorou um pouco mais para responder desta vez, como se estivesse organizando as palavras ou vasculhando a memória: — É meu marido... o meu esposo.
Depois de dizer isso, ela deu uma olhada rápida para Marcelo de forma instintiva e depois ergueu os olhos para encará-lo, parecendo um pouco incerta sobre esse título, mas carregando uma confiança instintiva.
— Muito bem. — A Dra. Elisa assentiu, anotou algumas coisas e fez um sinal para Marcelo manter a calma, continuando o teste.
— Sabe onde você está agora? Por que está aqui?
Bianca olhou ao redor. Seus olhos passaram pelos móveis e aparelhos do quarto, e seu rosto demonstrou uma confusão e dificuldade evidentes.
Ela pensou por um longo tempo e, no fim, balançou a cabeça: — No hospital... Eu... eu não sei por que estou aqui, minha cabeça está girando...
— Você foi para a Montanha Q antes, lembra? Estava inspecionando um projeto com os colegas? — A Dra. Elisa sugeriu.
— Montanha Q... — Bianca repetiu o nome. Seu olhar ficou ainda mais perdido, e ela franziu a testa, como se fizesse força para lembrar.
— Não lembro... Não consigo lembrar... Não consigo lembrar de um monte de coisas... Minha cabeça dói.
— Não tem problema, se não consegue lembrar, não pense nisso agora. — A Dra. Elisa a interrompeu imediatamente. A dificuldade em resgatar memórias após uma lesão cerebral era comum, e forçar a lembrança poderia piorar a dor de cabeça e até causar agitação emocional.
Em seguida, a Dra. Elisa fez mais algumas perguntas sobre tempo, lugar e eventos recentes, como a data de hoje, se o Ano Novo já tinha passado e se havia acontecido algo marcante nos últimos dias.
Bianca não soube responder a maior parte, ou deu respostas vagas.
Sua percepção de tempo estava confusa. As lembranças de antes de se machucar eram fragmentadas e não formavam uma memória completa. Sobre como havia se ferido, sua mente estava em branco.
A única coisa clara era a própria identidade, além do reconhecimento e da dependência instintiva que sentia por Marcelo.
— O diagnóstico inicial é que a paciente sofreu amnésia retrógrada devido ao traumatismo craniano. O principal sintoma é a perda de memória de eventos ocorridos pouco antes e depois da lesão. Em relação a acontecimentos e pessoas mais antigas, principalmente os com forte conexão emocional, a memória foi relativamente bem preservada, mas apresenta fragmentação e imprecisão. — A Dra. Elisa explicou para Marcelo.
— Por enquanto, ela mantém o reconhecimento e o laço emocional com você, o que é um ótimo sinal. No entanto, para saber exatamente quais memórias foram perdidas e o grau de comprometimento, precisaremos aguardar até que o quadro dela se estabilize para realizar uma avaliação neuropsicológica sistêmica. Agora ela precisa descansar e evitar esforço mental excessivo, além de alterações de humor.
— Certo. Obrigado, Dra. Elisa. — Marcelo assentiu, mas não tirou os olhos de Bianca.
A médica e a enfermeira fizeram mais alguns procedimentos, ajustaram a velocidade do soro, aplicaram analgésicos e medicamentos neurotróficos em Bianca, e só saíram do quarto depois de repassarem as recomendações.

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