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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 270

Felipe

Eu não sabia o que esperava do hospital.

Talvez algo que me fizesse sentir alguma coisa diferente do que eu já estava sentindo. Talvez uma resposta que eu não soubesse que estava procurando. Mas quando entramos, era só um lugar, aquele cheiro específico que eu conhecia de consultas, aquele barulho de fundo constante, o piso que eu sentia diferente debaixo dos tênis.

O papai foi até a recepção, e a mamãe ficou do meu lado com a mão levemente no meu braço, não me segurando, só presente, daquele jeito dela.

Eu fiquei quieto, ouvindo.

Em algum momento uma enfermeira nos guiou por um corredor, e eu prestei atenção em cada detalhe, o som das portas, a mudança de temperatura quando passamos por uma área mais fria, uma voz ao fundo que estava chorando baixinho atrás de uma porta fechada.

E então paramos.

"É aqui que está sendo tratada a papelada", a enfermeira disse. "Mas tem um casal esperando na sala ao lado. Disseram que são familiares."

O papai ficou parado por um segundo.

Eu senti a mamãe enrijecer levemente ao meu lado.

"Familiares de quem?", o pai perguntou.

"Da Emily Morrow." Uma pausa. "Disseram que são os pais dela."

O silêncio que veio depois durou muito tempo. Eu processei aquilo devagar. Os pais dela. Os pais dela eram os avós maternos.

Os meus avós maternos.

"Felipe." A voz do papai chegou baixa, perto. "Você não precisa..."

"Eu quero conhecê-los", eu disse.

Ele ficou quieto.

"Tem certeza?"

Pensei por um segundo de verdade, checando o que estava sentindo por baixo do que estava pensando.

"Tenho", eu disse.

Então ele concordou e pediu para a enfermeira nos levar até eles.

A sala era pequena.

Eu sabia porque o som mudou quando entramos, mais contido, mais fechado, o tom da voz se propagava de forma diferente. Duas pessoas se levantaram ao mesmo tempo, eu ouvi pelos passos, e então uma voz feminina, um pouco rouca como de quem estava chorando há tempo, disse:

"André, quanto tempo."

"Olá dona Meire. Muito tempo mesmo. Deixa eu ter apresentar o meu filho, Felipe."

O silêncio que veio depois foi diferente.

Era aquele silêncio de quem está olhando para algo que não esperava encontrar.

"Filho?", a voz feminina saiu diferente agora. Menor.

"Emily escondeu de todos nós que tinha dado a luz a um bebê depois que nos separamos", Andréi disse, direto, mas com cuidado. "Ele tem dez anos. Fiquei sabendo da existência dele, poucos dias antes de tudo isso acontecer."

Mais silêncio.

E então ouvi passos se aproximando, lentos, cuidadosos e uma mão encontrou a minha de um jeito que não era invasivo, era só... chegando.

"Meu Deus", a mulher disse, baixinho. "Você tem os olhos dela."

Fiquei parado.

"Eu não enxergo", eu disse, porque parecia importante dizer. "Mas tô em tratamento."

"O quê?", ela disse, e a voz estava diferente agora, mais funda, mais cheia de alguma coisa que eu não conseguia nomear. "O que a Emily fez? Eu... ainda assim você tem os olhos dela."

O homem não tinha falado nada ainda.

Quando falou, a voz estava rouca de um jeito diferente da dela, não era choro, era contenção.

"Nós não sabíamos", ele disse. "Que ela estava grávida, que havia uma criança... não sabíamos de nada, André." Uma pausa. "A Emily e a gente... a gente se afastou muito nos últimos anos. Ela foi ficando diferente, foi se afastando, e a gente não soube como se aproximar de novo."

Fiquei ouvindo.

"Você está sendo cuidado?", a mulher perguntou. "Está bem?"

"Estou", eu disse. "Tenho um pai e uma mãe agora."

Ouvi quando ela segurou o ar. Papai então disse.

"Essa é Laís, minha esposa. Entramos com o pedido de adoção, para que o nome dela conste na certidão de nascimento do Felipe, uma vez que a Emily abriu mão dele."

"Fico feliz", ela disse, e soou verdadeiro. "Fico muito feliz."

***

O enterro foi dois dias depois.

Eu não sabia se devia ir.

Fiquei pensando nisso na noite anterior, deitado no quarto azul, ouvindo a casa em silêncio. Não era medo exatamente, era aquela incerteza de não saber o que era certo sentir, o que era certo fazer.

A Laís entrou no meu quarto sem bater, daquele jeito que ela faz quando sabe que eu não estou dormindo.

Sentou na beira da cama.

"Não consigo decidir se vou", eu disse, antes que ela perguntasse.

"Não precisa decidir agora", ela disse.

"É amanhã."

"Então você tem até amanhã."

270. Enterro 1

270. Enterro 2

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