André
Eu não esperava.
Quando ela entrou pela porta, eu já sabia pelo olhar, aquele olhar que a Branca tem quando está segurando alguma coisa grande demais, quando o rosto fica quieto de um jeito que não é paz, é contenção. Eu conheço minha irmã. Conheço cada versão dela.
E aquela versão me assustou.
Fiquei parado enquanto o Cássio falava, enquanto ela ouvia, enquanto as palavras iam caindo uma por uma no silêncio da sala. Vi quando ela processou. Vi quando chegou. E vi quando as pernas dela cederam antes que qualquer um de nós conseguisse chegar a tempo.
"Branca!"
O Cássio foi mais rápido, estava mais perto, os braços chegando antes que ela tocasse o chão, segurando com aquela firmeza que eu já tinha visto ele usar quando precisava ser o mais sólido da sala.
"Amor..." ele sussurrou, pegando-a no colo. "André, busca água agora..."
Eu fui.
Saí do escritório quase correndo, atravessei o corredor, empurrei a porta da cozinha. Laís estava lá, de costas para mim, organizando alguma coisa na bancada, completamente alheia ao que tinha acabado de acontecer a alguns metros de distância.
Ela se virou quando me ouviu entrar e leu minha expressão antes que eu abrisse a boca.
"O que foi?"
"A Branca desmaiou." As palavras saíram atropeladas. "Ela ouviu a conversa sobre a Ana, sobre o Pedro, e ela... preciso de um copo de água pra ela..."
Laís largou o que estava fazendo na mesma hora e me ajudou.
Quando voltamos, a Branca já estava de olhos abertos, recostada no sofá, o Cássio ajoelhado na frente dela com as mãos nas dela. Ela piscou algumas vezes, como se ainda estivesse encontrando o caminho de volta, e então o rosto desabou.
O choro veio fundo, daquele lugar que não tem controle, que não pede licença.
Eu me sentei ao lado dela no mesmo instante, e a Laís ficou de pé perto de mim, a mão pousando no meu ombro por um segundo, um gesto pequeno que eu precisava mais do que sabia. Entregue o copo para ele, que me olhou agradecido e ofereceu a ela.
"Bebe um pouco, amor." O Cássio segurava as mãos dela com firmeza, a voz baixa. "Estou aqui. Estou aqui, Branca. Nós estamos aqui com você."
Mas ela chorava sem conseguir parar, os ombros sacudindo, e eu fiquei ali sem saber o que fazer com as mãos, com o silêncio, com a raiva que ia crescendo dentro de mim enquanto ela se despedaçava na minha frente.
"Não acredito", ela disse por fim, a voz partida. "Ela é tia dele, André." Me olhou com aqueles olhos que me partiram ao meio. "Ela brincou com ele várias vezes."
Eu fechei os olhos por um segundo.
"Eu sei."
"Ela dizia que o amava." A voz quebrou de novo. "Dizia que queria um bebê tão lindo quanto ele..." Ela parou, a respiração falhando. "Como alguém faz isso? Como uma pessoa olha para uma criança inocente e pensa em dinheiro?"
"Branca." O Cássio puxou-a para perto, e ela foi, o rosto afundando no ombro dele enquanto ele a envolvia com os dois braços. "Ninguém entende o que se passa na cabeça das pessoas..."


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