Cássio
Levei a Branca para o quarto com cuidado, a peguei nos braços, porque percebia que qualquer esforço ainda era muito doloroso para ela. O mundo dela tinha saído do eixo de novo. Ela não falou nada no caminho, ficou encostada em mim, deixando eu seguir, e eu fiz isso em silêncio, sem pressa, sem tentar preencher o que não precisava ser preenchido.
A Laís já estava na porta quando chegamos.
Ela não perguntou nada, só abriu espaço, coloquei a Branca no chão e Laís a envolveu com naturalidade de quem sabe exatamente o que está fazendo, e eu vi quando a Branca afundou no abraço dela como se finalmente pudesse soltar o resto do peso.
"Eu fico com ela", a Laís disse baixinho, me olhando por cima do ombro da Branca.
Assenti, dando uma última olhada antes de fechar a porta.
Fiquei parado no corredor por um segundo, ouvindo o silêncio da casa, sentindo a raiva assentar num lugar controlado dentro de mim. Não tinha como eu tirar a dor dela naquele momento. Mas tinha como eu ajudar a resolver esse problema... de uma vez por todas, então desci decidido a fazer o meu melhor por ela e pelo Pedro.
O André estava no escritório quando entrei, de pé perto da janela, os braços cruzados, aquela expressão de quem está processando e planejando ao mesmo tempo.
Me sentei na cadeira, peguei o celular, mandei mensagem pro Souza.
Preciso de você aqui. Agora se possível.
A resposta veio em menos de dois minutos.
A caminho.
Larguei o celular na mesa e olhei pro André.
"Vamos trabalhar."
Ele se virou, assentiu, e veio sentar do outro lado da mesa sem precisar de mais explicação do que essa.
Enquanto esperávamos o Souza, fui abrindo o que já tinha, os relatórios, o cruzamento de dados, as cópias que ele tinha deixado comigo no fórum. Coloquei tudo em cima da mesa, organizei por ordem cronológica, comecei a montar a linha do tempo com a precisão de quem já fez isso centenas de vezes, mas nunca com tanto peso pessoal envolvido.
O André ficou do meu lado, absorvendo cada detalhe, fazendo perguntas certas, sem atrapalhar o raciocínio.
Quando o Souza chegou, quarenta minutos depois, a mesa já estava tomada de papel.
Ele entrou, fechou a porta, olhou para tudo aquilo e soltou um ar lento pelo nariz.
"Trouxe o que faltava", disse, abrindo a pasta que carregava. "Extrato bancário completo, registro de chamadas dos trinta dias anteriores ao acidente, e o laudo pericial que na época foi arquivado como inconclusivo." Colocou tudo na mesa. "Relido agora, com o que temos, não é mais inconclusivo assim."
Peguei o laudo.
"O que quer dizer?" questionei.
"Falaram que foi um cara bêbado que bateu neles, mas que nunca foi achado. Fugiu do local, mas... olha isso aqui..."
Li.
E então li de novo.
"Falha mecânica induzida", disse em voz alta, mais para mim mesmo do que para eles.
"É o que parece", Souza confirmou. "Não dá para provar ainda sem o perito refazer a análise, mas é consistente com o padrão."
André ficou em silêncio do meu lado, e eu não precisei olhar para ele para saber o que estava sentindo.
"Um pequeno toque já faria o motorista perder o controle."
Fiquei olhando para aquele laudo por um segundo, e então levantei o olhar.
"Ela não vai se entregar", disse. "E se o Souza for atrás dela agora, sem provas suficientes para uma prisão preventiva sólida, ela some. Tem dinheiro, tem contatos, tem o sobrenome." Pausei. "Precisamos de mais. Ou precisamos de uma isca."
O André me olhou.
"Que tipo de isca?"


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