André
Eu não sei quem começou, mas em algum momento virou uma guerra.
A Aelyn estava deitada de bruços na cama, os cotovelos fincados no colchão, explicando as regras de um jogo que ela claramente estava inventando na hora, e o Felipe estava sentado do outro lado, os braços cruzados, com aquela expressão de quem já percebeu que está sendo enrolado, mas ainda não decidiu se vai reclamar.
"Isso não faz sentido", ele disse.
"Faz sim."
"Você acabou de mudar a regra."
"Eu não mudei, eu acrescentei."
"É a mesma coisa."
A Laís estava na poltrona do canto, fingindo ler alguma coisa no celular, mas o sorriso no canto da boca entregava que ela estava acompanhando cada segundo. Eu estava encostado na parede perto da porta, os braços cruzados, sentindo aquela coisa estranha e boa que ainda não tinha nome ou tinha, mas eu ainda estava aprendendo a me deixar sentir.
"Pai", Felipe chamou, virando o rosto na minha direção com uma precisão que ainda me surpreendia. "Ela tá trapaceando."
"Eu não tô trapaceando, eu tô adaptando."
"É a mesma..."
"Não é."
Eu ri antes de conseguir segurar.
"Aelyn", disse, tentando soar neutro. "Não se pode inventar regras na hora, querida. Tem que ser combinado antes do jogo..."
Ela me olhou com uma expressão de traição profunda.
"Mas tio André..."
"Essa é uma regra universal, querida."
Ela bufou, se jogou de costas no colchão, e ficou olhando pro teto por dois segundos dramáticos antes de sentar de novo.
"Tá bom. Sem adaptações."
Felipe descruzou os braços, satisfeito.
"Obrigado."
"De nada."
A Laís baixou o celular e me olhou, e eu sabia exatamente o que estava no olhar dela, aquela mistura de cansaço bom e gratidão e alguma coisa mais funda que ela não precisava colocar em palavras pra eu entender.
Eu estava prestes a me sentar na cama quando bateram de leve na porta.
Cássio apareceu na entrada, o olhar tranquilo demais pra os outros, mas cheio de significados para um juiz.
"André." A voz baixa, cuidadosa. "Tem um minutinho?"
"Claro, já volto."
Fui com ele para o corredor. Eu fechei a porta do quarto atrás de mim e encarei o Cássio, que esperou um segundo antes de falar.
"Recebi uma mensagem há alguns minutos." Ele falou devagar, medindo cada palavra. "Uma mulher foi arrastada para fora de um hotel nas margens da cidade." Ele esperou minha reação. "A descrição b**e com a Emily."
O silêncio que veio depois foi diferente dos outros.
Eu fiquei parado, processando, sentindo alguma coisa se mover dentro de mim, não era preocupação, não era exatamente isso, e então assenti uma vez, seco.


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