Cássio
Quando voltei a casa, tudo parecia ainda mais quieto, as luzes já estavam baixas, e a casa parecia se preparar para dormir. A única que ainda falava sem parar era Aelyn, e sorri para o nada.
Subi direto para o quarto do André.
A porta estava entreaberta, e antes mesmo de bater, ouvi a Aelyn argumentando com uma convicção impressionante para alguém que estava claramente morrendo de sono.
Entrei.
Ela estava sentada na cama ao lado do Felipe, os olhos semicerrados, coçando um deles com o punho fechado enquanto dizia alguma coisa sobre não estar com sono nenhum. O Felipe tinha aquela expressão de quem já tinha desistido de entender a lógica dela há algum tempo.
"Aelyn, está na hora de deixarmos eles dormirem."
Ela virou o rosto na minha direção.
"Não estamos com sono..."
"Eu to com sono..." Felipe falou e vi ela o cutucar com o cotovelo e olhei para Laís e André que seguraram o riso.
"Você está coçando o olho, mocinha."
"Caiu um cílio, papai, não é sono."
Branca apareceu ao meu lado antes que eu respondesse, e ela tinha aquele olhar de mãe que não negocia, apenas mostra o que tem que ser feito.
"Hora de dormir, minha princesinha."
"Mas..."
"Vem, amanhã você e o Felipe brincam mais."
Aelyn soltou um suspiro dramático que ela claramente achava devastador, se despediu do Felipe com uma seriedade fora do comum para o horário, e veio na nossa direção arrastando levemente os pés.
Fomos até o quarto dela os três juntos, ela no meio, ainda murmurando que estava bem acordada enquanto bocejava pela segunda vez.
"Eu queria brincar mais." reclamou subindo na cama.
"Amanhã você terá o dia todo, meu amor." Branca falou a cobrindo.
"E o Felipe também precisa de uma folga... ele acabou de chegar, temos que dar espaço para ele." ela me olhou séria se sentando de novo.
"Papai, ele vai ser sempre assim?"
"Assim como?"
"Sem enxergar? Sem poder ver as coisas lindas?"
"Não sabemos, o tio André vai levá-lo ao médico."
"Ele pode ganhar olhos novos, assim como eu ganhei meu coração novo." olhei para Branca que sorria para ela.
"O médico vai dizer o que é necessário, mas agora eu digo, que é hora da senhorita ir dormir." Branca falou com carinho.
A rotina foi rápida, luz baixa, copo d'água na mesinha, cobertor ajustado, o unicórnio no lugar certo. Branca ficou um pouco mais, passando a mão no cabelo dela, e eu observei da porta, sentindo aquela coisa tranquila e cheia que às vezes aparece nos momentos mais simples.
Quando saímos, a Aelyn já estava com os olhos fechados.
Voltamos para o nosso quarto, que parecia em paz, mas, ao mesmo tempo, parecia que segurava uma tempestade antes de cair.
Branca foi até a cômoda enquanto eu tirava o blazer, e quando ela veio ajudar com a camisa, seus dedos trabalharam devagar, sem pressa, e eu deixei, porque havia algo naquele gesto simples que me ancorava mais do que qualquer conversa.
"Vou tomar banho", falei. "Quer vir comigo?" sorri de lado.
"Hoje eu vou passar. Já tomei banho enquanto estava lá embaixo."
"Droga..." ela riu e eu a beijei com carinho.
O chuveiro estava quente, e por alguns minutos eu fiquei parado debaixo da água sem pensar em nada específico, deixando o dia escorrer junto com ela. Mas alguma coisa insistia em voltar, batendo devagar no fundo da cabeça, e eu sabia que ia ter que falar.
"Amor?" A voz dela me resgatou em algum momento.
"Oi?" Saí do meu torpor e olhei para ela por meio do box.
"Aconteceu alguma coisa?"
Pensei em como dizer aquilo.
"Entendo o André", falei, a voz saindo mais baixa com o barulho da água. "Entendo cada palavra que ele disse hoje. Mas..." Pausei. "Sequestraram a Emily, Branca."


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz