Dante
O médico respirou e disse:
- A acompanhante... ela teve uma reação alérgica grave. Anafilaxia. Acreditamos que a fumaça continha um agente químico que desencadeou isso. Ela também inalou uma quantidade considerável, o que piorou a respiração dela.
Meu maxilar travou.
- Ela vai morrer? - perguntei, direto, sem rodeio, porque eu prefiro a verdade nua ao conforto vestido.
- Não. - ele disse rápido, como se quisesse cortar meu pânico no início. - Tratamos imediatamente assim que ela chegou. Epinefrina, oxigênio, medicamentos intravenosos. Ela está estável agora. Mas... como houve uma certa demora até ela receber ajuda, os pulmões sofreram estresse. Ela precisará de observação na UTI esta noite. Possivelmente por mais tempo.
UTI.
Eu imaginei Mario ouvindo essa palavra.
Mario não é homem que chora.
Mas há coisas que transformam um homem em arma.
E eu senti, com a lucidez fria de quem conhece o próprio exército: isso vai acender Mario de um jeito que nem eu controlo.
- Eu quero ver as duas. - eu disse.
- O senhor pode ver sua esposa primeiro. Depois o levaremos até a outra paciente, mas apenas brevemente.
- Faça. - respondi.
Ele apontou para o corredor. Uma enfermeira veio me buscar. Eu caminhei atrás dela como quem caminha para recuperar parte do próprio corpo.
Quando parei diante da porta do quarto de Valentina, meu peito doeu com a força de um homem que acha que tem controle e descobre que não tem.
A enfermeira abriu a porta.
E ali estava ela.
Deitada, pálida, mas inteira. O cabelo espalhado no travesseiro como sempre fica depois que ela dorme de verdade. Um curativo pequeno no braço, um monitor do lado marcando o que eu mais precisava ler no mundo: vida.
Me aproximei devagar, como se o chão fosse fino. Como se qualquer passo mais pesado pudesse acordar o susto de novo.
Sentei na beira da cama. Peguei a mão dela.
A mão dela estava quente.
Quente é bom. Quente é casa.
Passei o polegar pelos dedos dela com cuidado, como se eu estivesse assinando um contrato invisível na pele.
- Você é teimosa até quando desmaia. - sussurrei, porque eu não sabia ficar em silêncio diante dela. - Quis me ensinar uma coisa, né? Quis me lembrar que nem Don manda no que é frágil.
Eu olhei para a barriga dela, coberta pelo lençol.
- Dois. - murmurei. - Dois corações pequenos... e eu quase perdi a cabeça porque alguém resolveu brincar de tempestade.
Me inclinei e beijei a testa dela. Um beijo demorado, do tipo que não é romântico é ritual. É proteção. É fé do meu jeito.
E então eu fiz o que eu raramente faço com alguém além dela:
Eu confessei, baixo, sem plateia, sem máscara.
- Valentina, eu não sei rezar como os santos. Eu sei prometer. E eu tô prometendo agora, aqui, olhando pra você dormindo... que ninguém vai transformar teu corpo em campo de batalha sem pagar com a própria vida. - minha voz saiu baixa, mas cada palavra tinha peso. - Eles querem te fazer medo. Só que medo em você vira coragem. E coragem em mim vira massacre.
Minha mão subiu e encostou de leve no lençol sobre a barriga.
- Vocês estão seguros. - eu disse para os dois que eu não podia ver. - Enquanto eu respirar, ninguém tira vocês dela. E ninguém tira ela de mim.
Fiquei mais alguns segundos ali, só sentindo a respiração dela, como se eu estivesse reaprendendo o mundo pelo ritmo do peito dela.

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