Dante
Dois meses.
Sessenta e um dias.
Mil, quatrocentas e sessenta e quatro horas.
Eu aprendi a contar o tempo não por relógios ou prazos de carregamentos, mas pelos bipes de um monitor cardíaco e pelas mamadas de duas crianças que não entendem por que a mãe não vem quando elas choram.
Transformei a ala leste da mansão em um hospital de ponta. A Doutora Chiara praticamente mora aqui. Três enfermeiras se revezavam em turnos de oito horas. O quarto onde Valentina dormia cheirava a antisséptico e lavanda, o cheiro dela lutando contra o cheiro da medicina.
A ferida no peito dela estava fechada. A cicatriz, uma linha rosada e furiosa, era a marca da bala que deveria ter me matado, não ela. O corpo estava curado. Os ossos, colados. Mas a mente... a mente dela decidiu vagar por lugares onde eu não podia entrar.
Desci as escadas com a camisa social desabotoada, manchas de leite no ombro esquerdo e olheiras que nenhum dinheiro no mundo podia apagar. Na sala de estar, o caos habitual da manhã estava instalado.
- Não, Nico! Isso é cabelo da madrinha, não é brinquedo! - ouvi a voz de Sofia.
Parei no último degrau. Sofia estava sentada no tapete, com Nicolau no colo. O menino, agora com cinco meses e pesando como um pequeno chumbo, puxava uma mecha do cabelo dela com uma força impressionante.
Do outro lado, Elisa ninava Vittoria, que observava o mundo com aqueles olhos grandes e atentos, os únicos olhos na casa que pareciam me julgar silenciosamente. Teresa dobrava fraldas como se estivesse preparando munição para guerra.
Mario entrou pela porta da cozinha, segurando duas mamadeiras. O Sottocapo da Máfia italiana, o homem que quebrava dedos sem piscar, agora sabia a temperatura exata do leite materno doado.
- Bom dia, Don. - Mario me cumprimentou, entregando uma mamadeira para Sofia e ficando com a outra.
- Dia. - respondi, minha voz rouca de quem dormiu, ou tentou dormir três horas.
Caminhei até Elisa e peguei Vittoria. Ela se aconchegou no meu peito imediatamente, o pequeno punho agarrando minha camisa.
- Como foi a noite? - Sofia perguntou, enquanto Nico atacava a mamadeira como um tubarão.
- Estável. - respondi, a palavra que eu aprendi a odiar. Estável significa "não morreu", mas também significa "não viveu". - A febre cedeu. Chiara disse que os sinais vitais estão fortes.
Sofia suspirou, trocando um olhar triste com Teresa.
- Ela vai voltar, Dante. - Sofia disse, firme. - Ela é teimosa demais para perder o crescimento deles. Olha o tamanho desse bambino! Ele já está quase perdendo as roupas que compramos a quinze dias atrás.
- Eu sei. - beijei a testa da minha filha. - Eu não teria sobrevivido a esses dois meses sem vocês.
Olhei para aquele grupo. Mario, Sofia, Teresa, Elisa. E Joseph, que estava lá fora garantindo que nem o vento entrasse sem permissão. Eles eram a muralha. Eu achava que ser Don era carregar o mundo nas costas sozinho. Mas descobri que ser pai... ser pai sem a mãe é um peso que nenhum homem suporta sem ajuda.
- Vá para o escritório. - Mario disse, sentando ao lado da esposa e limpando a boca do Nico. - Eu cuido das rotas de Nápoles hoje. Joseph já filtrou as reuniões. Você tem uma hora livre antes do almoço. - Assenti.
Eu cumpri minhas obrigações de Don no piloto automático. Assinei sentenças, aprovei orçamentos, ordenei o fim de clãs rivais que tentaram aproveitar meu momento de "fraqueza". Eles descobriram da pior forma que um animal ferido é muito mais letal. Mas quando a noite caiu, e a casa finalmente silenciou, eu deixei de ser o Don. Deixei de ser o Pai.
Subi as escadas devagar. Entrei no quarto dela. As enfermeiras sabiam o protocolo. Assim que eu entrava, elas saíam, me deixando a sós com minha esposa. Puxei a poltrona de couro para o lado da cama. A mesma poltrona onde eu passei as últimas sessenta e uma noites.
Valentina parecia uma boneca de porcelana. Pálida, imóvel. O tubo de respiração já tinha sido retirado há semanas, substituído por uma traqueostomia discreta que Chiara garantia ser mais confortável, mas que eu odiava ver.
Segurei a mão dela. Estava morna. As unhas estavam pintadas de um rosa claro, obra da Sofia, que vinha toda semana fazer a manicure dela, conversando como se Valentina estivesse acordada.
- Oi, mia vita. - sussurrei. O bipe do monitor foi minha única resposta. Apoiei a cabeça no colchão, ao lado do quadril dela. - Hoje foi um dia longo.
Comecei meu relatório diário.


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