Epílogo
Dante
Dois anos depois.
A casa cheirava a cera de madeira antiga e biscoitos de canela. Parei na porta da biblioteca, apoiando o ombro no batente, sem fazer barulho. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem de três dias a Milão e estava exausto, com o cheiro de aeroporto e reuniões entediantes impregnado na roupa.
Mas aquela cena... aquela cena limpou minha alma instantaneamente. A luz dourada do fim de tarde entrava pelas janelas altas. Valentina estava sentada ao piano de cauda. Ela tocava algo suave, uma melodia que parecia flutuar no ar, os dedos dançando sobre as teclas com uma leveza que contrastava com a força que eu sabia que aquelas mãos tinham.
No sofá de veludo, Sofia estava esparramada, com os pés apoiados numa pilha de almofadas, massageando o tornozelo inchado. A barriga de sete meses de gravidez era uma curva proeminente sob o vestido florido.
- Eu juro, Tina... - Sofia resmungava, interrompendo a música. - Se o Mario me disser mais uma vez para "ficar calma", eu vou usar a arma dele contra ele. Meus pés parecem dois pães italianos.
Valentina riu, sem parar de tocar.
- Ele só está preocupado, Soso. É o primeiro filho dele. Ele acha que você vai quebrar.
- Eu não quebro. - Sofia bufou. - Mas posso quebrar a cara dele se ele não trouxer meu sorvete de pistache logo.
Sorri. A paz doméstica. O meu refúgio. Desviei o olhar para o tapete persa. Nicolau e Vittoria estavam lá. Quase três anos de idade. Nico construía uma torre torta de blocos de madeira, concentrado, com a língua entre os dentes, a mesma expressão que eu fazia quando assinava contratos.
Vittoria, sentada ao lado dele, organizava os blocos por cor antes de entregar ao irmão, a pequena estrategista em treinamento. Foi Vittoria quem me viu primeiro. Ela levantou os olhos escuros, arregalou-os e largou o bloco vermelho.
- Papà! - ela gritou, a voz aguda de felicidade pura.
A música parou bruscamente. A torre de blocos caiu quando Nico se levantou num pulo.
- Papà!
Os dois correram na minha direção. Não tive tempo nem de soltar a mala. Ajoelhei-me no chão e fui atropelado por dois furacões cheirosos.
- Ei, ei! Devagar! - ri, abraçando os dois, beijando as cabeças despenteadas. - Vocês cresceram desde segunda-feira? Como isso é possível?
- Eu comi tudo o brócolis! - Nico anunciou, orgulhoso, subindo no meu colo.
- E eu ajudei a mamãe a tocar. - Vittoria completou, agarrando meu pescoço.
Levantei o olhar. Valentina estava de pé, ao lado do piano. Ela usava um vestido azul-marinho simples, mas para mim, ela estava vestida de rainha. O sorriso dela era o meu porto seguro.
- Bem-vindo de volta. - ela disse suavemente.
Levantei-me, ainda com as crianças penduradas em mim (minha coluna que lutasse), e caminhei até ela.
- Oi, Sofia. - cumprimentei. - O Mario está na cozinha brigando com o pote de sorvete. Eu o vi quando entrei.
- Aleluia. - Sofia suspirou aliviada. - Crianças, vamos ver se o padrinho achou o sorvete de pistache?
Ela se levantou com dificuldade. Nico e Vittoria, ouvindo a palavra mágica "sorvete", escorregaram dos meus braços e correram atrás da madrinha grávida, gritando por açúcar. A biblioteca ficou silenciosa.
Aproximei-me dela, puxando-a pela cintura. O beijo foi lento, profundo, com gosto de saudade.
- Senti sua falta. - murmurei contra os lábios dela. - Milão é fria sem você.
- Você sobreviveu. - ela sorriu, ajeitando a gola da minha camisa. - Sempre sobrevive.
Ela me olhou de um jeito estranho. Travesso. Havia um brilho nos olhos dela que eu conhecia bem: ela estava aprontando.
- O que foi? - perguntei, desconfiado.
- Estava pensando... - ela se afastou um passo e enfiou a mão no bolso do vestido. - Lembra daquela história que combinamos contar nos almoços de domingo?
- Sobre o melhor negócio da minha vida? - sorri. - Lembro.

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