Dante
Eu enfrentei exércitos. Negociei com terroristas. Sobrevivi a torturas e enterrei inimigos com as minhas próprias mãos. Mas nunca, em trinta e dois anos de vida, minhas mãos suaram tanto quanto agora.
Ajeitei a gravata pela décima vez na frente do espelho do hall. O nó estava perfeito, mas parecia apertar minha garganta.
- Se você mexer nessa gravata de novo, eu vou chamar a Teresa para te dar uma colherada na mão.
Virei-me. Mario estava encostado na porta, um copo de uísque na mão e um sorriso debochado no rosto. O Sottocapo parecia irritantemente calmo.
- A segurança? - perguntei, ignorando a piada.
- O perímetro está fechado, Dante. - Mario revirou os olhos, desencostando da porta. - Temos atiradores nos telhados, drones no ar e mais homens armados disfarçados de garçons do que garçons de verdade. Nem uma mosca entra aqui sem autorização. Relaxe. Hoje é dia de paz.
Ele me estendeu o copo.
- Beba. Você parece que vai vomitar.
Peguei o copo e virei o líquido âmbar de uma vez. O fogo desceu queimando, acalmando meus nervos por um segundo.
- É só... - respirei fundo, olhando para o jardim através das portas de vidro abertas. - Eu nunca achei que chegaria aqui. Vivo. Com ela.
Mario pousou a mão no meu ombro. O aperto foi firme. Irmãos de guerra.
- Você mereceu, irmão. Agora vamos. O padre está ficando impaciente e o Nico já tentou comer as flores da decoração duas vezes.
Ri, a tensão finalmente quebrando. Saímos para o jardim. A mansão Vitale estava irreconhecível. Não havia sombras, não havia fantasmas. Havia flores brancas em cada canto, fitas de seda, luzes douradas penduradas nas árvores e o cheiro doce de jasmim misturado com algo que demorei a identificar: o cheiro de felicidade.
Perto do altar, Elisa e Sofia tentavam conter a dupla dinâmica. Nico estava num mini terno feito sob medida, parecendo um pequeno mafioso, tentando arrancar a gravata borboleta. Vittoria, num vestido de renda que parecia uma nuvem, estava no colo de Elisa, batendo palminhas para o nada.
- Papai! - Sofia apontou para mim, falando com Nico.
O menino sorriu, aquela boca banguela com dois dentes novos aparecendo, e esticou os braços. Meu coração derreteu.
- O noivo chegou! - Elisa anunciou, ajeitando o laço de Vittoria. - Vai para o seu lugar, Don Vitale. A noiva não demora. E dizem que ela está de parar o trânsito.
Caminhei até o altar. O padre sorriu para mim. Os convidados, a família que restou, os amigos leais, os aliados, todos se levantaram. A música começou. Não era a marcha nupcial tradicional. Era uma melodia suave, de violinos, a mesma música que tocava no rádio no dia em que ela passou pela porta da minha casa pela primeira vez.
As portas da varanda se abriram. E o mundo parou. O ar saiu dos meus pulmões e se recusou a voltar. Valentina. Ela não caminhava; ela flutuava. O vestido era uma obra de arte, renda e seda moldando o corpo que gerou meus filhos, que sobreviveu à morte.
O véu era longo, mas o rosto dela estava descoberto, e os olhos castanhos brilhavam com lágrimas contidas. Ela não estava sozinha. Teresa caminhava ao lado dela. A governanta, que sempre foi a alma dessa casa, vestia um traje elegante, segurando o braço de Valentina com um orgulho feroz.
Elas caminharam pelo tapete branco. Cada passo dela era uma batida do meu coração. Quando chegaram à minha frente, Teresa parou. Ela olhou para Valentina, ajeitou um fio solto de cabelo, e depois olhou para mim.
- Dante... - Teresa começou, a voz trêmula, mas cheia daquela sabedoria antiga. - Eu não te entrego uma menina. A menina que entrou aqui assustada foi forjada no fogo. Eu te entrego uma mulher feita de aço e flor. Cuide dela. Porque ela é o coração dessa casa. E se o coração para... o corpo morre.
Valentina soluçou, virando-se para Teresa.
- Obrigada... mãe. - ela sussurrou.
Teresa desabou, as lágrimas correndo livres pelo rosto enrugado. Ela beijou a mão de Valentina. Dei um passo à frente. Inclinei-me e beijei a testa de Teresa.
- Eu prometo, Teresa. Com a minha vida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia