Dante
O mundo era barulho. Sirenes. Gritos. O som do monitor cardíaco falhando. Mas dentro da minha cabeça, havia apenas um silêncio branco. Eu estava dentro da ambulância. Minhas mãos ainda pressionavam a gaze sobre o peito dela, embora o paramédico tivesse tentado me afastar duas vezes.
- O senhor precisa soltar! - ele gritou.
- Se eu soltar, ela sangra! - rosnei, e ele viu nos meus olhos que eu mataria qualquer um que me impedisse de tentar salvá-la. - Dirija essa merda mais rápido!
Eu olhava para o rosto dela. Pálido. Cinza. A máscara de oxigênio embaçava ritmicamente, cada vez mais fraca.
- Não ouse. - sussurrei perto do ouvido dela, ignorando o caos ao redor. - Você não tem permissão para ir, Valentina. Eu não autorizei. Você me ouviu? Eu não autorizei!
A ambulância parou no hospital com um solavanco. As portas se abriram. O mundo virou um borrão de luzes fluorescentes e jalecos brancos.
- Ferimento por arma de fogo no tórax! Perda massiva de sangue! Pressão 6 por 4! Preparem o centro cirúrgico!
Eles correram com a maca. Eu corri junto. Minha mão segurava a dela até o último segundo, até a porta dupla bater na minha cara.
- Senhor, você não pode entrar! - uma enfermeira barrou minha passagem.
Eu parei. Olhei para as minhas mãos. Elas estavam vermelhas. O sangue dela estava nas minhas unhas, nos meus pulsos. O sangue da mulher que me pediu para cuidar dos nossos filhos.
De repente, minhas pernas, que suportaram guerras, tiroteios e torturas, cederam. Caí sentado numa daquelas cadeiras de plástico duras da sala de espera. Fiquei ali. Estático. Uma estátua de horror manchada de vermelho no meio de um hospital branco e estéril.
Mario chegou minutos depois. Ele veio até mim, parou na minha frente. Ele não perguntou como eu estava. Ele sabia.
- As crianças estão seguras. - Mario informou, a voz baixa. - Teresa e Elisa estão com elas na mansão. A segurança foi triplicada.
Não respondi. A única coisa que eu conseguia ouvir era a voz dela dizendo "obrigada por me fazer sua".
- Dante... - Mario tocou meu ombro.
- Não me toca. - sussurrei, a voz rouca. - Se alguém me tocar... eu vou quebrar.
Mario recuou. Ele se sentou na cadeira em frente, montando guarda. Ninguém se aproximava de nós. Eu devia parecer o próprio diabo, coberto de sangue, esperando o julgamento final. As horas passaram. Uma. Duas. Quatro. Cada minuto era uma faca girando no meu estômago.
Mario falou sobre ir até Sofia que estava nesse hospital também, ela tinha levado um tiro tentando salvar Valentina, mas foi de raspão, ela estava bem.
Naquela cadeira me lembrei de cada momento. Do dia que ela chegou em minha casa. Da primeira vez que ela me desafiou. Dos nossos jogos de palavras. Da paixão que ela despertou em mim no primeiro beijo, no primeiro orgasmo que dei a ela. Ela foi minha... só minha.
A imagem dos bebês me atingiu. A imagem do sorriso dela hoje de manhã na igreja.
"Deus, leve tudo. - rezei, fechando os olhos com força. - Leve o dinheiro. Leve o poder. Leve Florença inteira. Mas devolva ela."
A porta do centro cirúrgico se abriu. Levantei num pulo. O movimento foi tão brusco que minha visão escureceu por um segundo. O cirurgião veio até mim. Ele parecia exausto. A touca na cabeça, a máscara pendurada no pescoço. Ele olhou para o meu estado. Para o sangue na minha roupa. Ele engoliu seco.
- Senhor Vitale?
Avancei até ele, invadindo seu espaço pessoal.
- Diga. - ordenei. - Diga que ela está viva.
O médico respirou fundo.
- Ela está viva.

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