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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 98

Dante

O hospital não tinha nada de elegante. Não tinha mármore bonito, não tinha música baixa, não tinha protocolo ministerial. Tinha luz branca, cheiro de desinfetante e o tipo de pressa que não se negocia com poder. Eu entrei como quem invade um território inimigo, carregando a minha mulher nos braços, e naquele instante eu não era Don, não era rei de porto nenhum, eu era um homem com as mãos cheias do próprio mundo, tentando impedir que ele escorresse.

Valentina estava leve demais. Não porque ela pesa pouco, mas porque o corpo dela, quando está inconsciente, perde aquela teimosia viva que me provoca. Perde a briga. E eu odeio quando ela perde a briga.

O sangue no tecido do vestido era um detalhe pequeno demais para justificar o terror que ele acende em mim. Sangue de Valentina não é só sangue. É aviso. É alarme. É uma assinatura em tinta vermelha dizendo que alguém ousou tocar onde eu jurei que ninguém tocaria.

Atrás de mim, Mario vinha com Sofia nos braços, e ver meu braço direito dividindo o desespero comigo, não era alívio... era martírio.

- Emergência! - eu não gritei. Eu ordenei. Minha voz atravessou a recepção como uma lâmina atravessa papel.

As portas abriram no segundo seguinte. Uma equipe de jalecos apareceu com uma maca e olhos treinados. E aí a realidade me deu o único tapa que nem dinheiro, nem armas, nem sobrenome consertam.

Eles não pediram permissão. Eles tomaram.

Tomaram Valentina de mim com a mesma urgência com que se toma uma criança do incêndio. Eu dei um passo junto, instintivo, como se eu pudesse segurar a vida no braço e impedir que ela me escapasse.

Um dos médicos levantou a mão.

- Senhor, precisamos de espaço. Por favor.

Eu entendi. Mas não aceitei.

- Eu vou junto. - minha resposta saiu em italiano puro, como se o inglês fosse fino demais para o que eu estava sentindo.

A enfermeira repetiu, mais firme.

- O senhor não pode. Vamos levá-la agora.

Meu peito contraiu. Meu corpo quis fazer o que sempre faz: impor presença, dobrar o mundo, abrir caminho com o nome Vitale. Mas o olhar do médico era o tipo de olhar que não se intimida com máfia. Era o olhar de quem não trabalha com poder... trabalha com tempo. E tempo, quando vira inimigo, não se compra.

Eu parei.

Deixei.

Mas ficou uma coisa em mim que não foi junto com a maca.

Meu ar.

As portas do corredor se fecharam atrás deles e o som foi uma sentença. Um clac seco que disse: agora você não manda. Agora você espera.

O corredor parecia longo demais. E o silêncio ali dentro tinha dentes.

Mario veio para perto, carregando Sofia até outra equipe que já se aproximava com outra maca. Quando colocaram ela deitada, o rosto dela ficou pálido sob a luz branca, e então eu vi, com clareza irritante, o pavor no rosto de Mario.

Mario sempre foi pedra. E agora a pedra tinha rachado.

- Fica com ela. - eu disse, baixo, direto, porque eu não tinha luxo para delicadeza.

Ele assentiu, mas seus olhos procuraram os meus, como se pedissem uma coisa que ele nunca pediria em voz alta: permissão para ser fraco por cinco minutos.

Eu não dei permissão. Eu dei ordem.

- Quero a Carmella na minha frente. Agora. - falei, o tom sem espaço para "depois". - Quero as imagens do corredor. Quero as que foram apagadas. Quero o minuto exato em que elas saíram do salão e o minuto exato em que alguém fechou aquela porta.

Mario inspirou como se quisesse obedecer no mesmo segundo, mas olhou para Sofia, e eu vi o conflito.

Ele não queria se afastar do hospital. Não por mim. Por ela.

Eu me aproximei, um passo, e falei como um homem que entende o que é amar enquanto trabalha com guerra.

- Você não vai sair daqui. - eu disse. - Não hoje. Eu não tiro você de perto dela.

Os olhos dele se estreitaram.

- Don, eu posso...

- Não pode. - cortei. Meu "não" foi faca. Mas não era contra ele. Era a favor deles. - Você é o único lugar onde ela vai acordar e reconhecer segurança. Então você vai ficar.

Ele engoliu seco, como se aquela frase tivesse sido um soco e um abraço ao mesmo tempo.

- Mas a Carmella...

- Vai aparecer. - eu prometi. E promessa minha não é poesia. É sentença. - Pega um homem de confiança. Um que você confia para fazer o trabalho sem querer virar herói. Manda buscar as imagens. Manda trazer ela. E quando você terminar de mandar... você volta e fica com a tua mulher.

Eu usei "tua mulher" de propósito. Porque Mario ainda tentava fingir que Sofia era "a garota". "A protegida". "A sombra".

Não era mais.

Era dele.

E eu vi no rosto dele a exata linha em que um homem atravessa da lealdade para o sangue. Ele assentiu.

- Sim, Don.

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