Valentina
Acordar não foi como acender uma luz.
Foi como emergir de um oceano profundo e escuro.
Primeiro veio o som: o bipe rítmico, a respiração pesada de alguém ao meu lado. Depois veio o toque: uma mão grande, áspera e quente segurando a minha. E por último, a dor. Não era a dor aguda do tiro. Era uma dor surda, de corpo esquecido, de músculos atrofiados.
Tentei engolir e senti um bloqueio estranho na garganta. Algo plástico. Algo errado. Levei a mão ao pescoço, os dedos trêmulos tocando o curativo, o tubo pequeno.
- Calma, Tina. - A voz de Chiara veio do outro lado, profissional, mas embargada de alívio. - Não tente falar. Você está com uma traqueostomia. Vai incomodar um pouco, mas é o que te ajudou a respirar.
Abri os olhos completamente. A luz do abajur era fraca, dourada. Dante estava ajoelhado ao meu lado. O rosto dele... meu Deus. Ele estava barbudo, com olheiras profundas, mas o sorriso que ele me deu foi a coisa mais bonita que já vi na vida.
- Você voltou. - ele sussurrou, beijando meus dedos. - Você voltou pra mim.
Tentei falar "Dante", mas nenhum som saiu. A frustração encheu meus olhos de lágrimas.
- Shhh... - Chiara se aproximou, checando o monitor. - Seus sinais estão ótimos, querida. Mas você precisa entender... o tempo passou.
Franzi a testa. Tempo?
- Você ficou em coma por dois meses, Valentina. - Chiara disse, segurando minha mão. - O seu corpo precisou desligar para curar o trauma no pulmão e no coração.
Dois meses.
O choque foi físico. Tentei me sentar, o pânico subindo.
Dois meses. Meus filhos. Eu perdi dois meses. O Nico... a Vittoria... Olhei para Dante, desesperada, movendo os lábios: "Crianças."
- Eles estão bem. - Dante garantiu rápido, segurando meus ombros para eu não me machucar. - Estão dormindo. São quase onze da noite.
Balancei a cabeça freneticamente.
Não.
Eu não me importava com a hora. Eu precisava vê-los. Precisava saber que eram reais, que a Beatrice não tinha vencido. Apontei para a porta. Meus olhos imploravam.
- Valentina, você não consegue andar. - Chiara avisou suavemente. - Seus músculos estão fracos. Amanhã nós trazemos eles...
Agarrei a camisa do Dante. Olhei no fundo dos olhos cinzas dele. Ele sabia. Ele sabia que eu não dormiria nem mais um segundo sem tocar neles. Dante olhou para a médica.
- Ela vai ver os filhos, Chiara.
- Dante, ela acabou de acordar...
- Eu levo ela. - ele cortou, decidido.
Ele se inclinou sobre mim. Passou um braço pelas minhas costas e outro sob meus joelhos. Me senti leve, frágil como papel, mas os braços dele eram de aço. Ele me tirou da cama com um cuidado reverente. Apoiei a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro de sândalo e tabaco que foi meu norte na escuridão.
Saímos do quarto. O corredor estava silencioso. Ele entrou no quarto dos gêmeos. A luz noturna projetava estrelas no teto. O cheiro de talco e leite morno me atingiu e eu solucei sem som.
Dante me levou até o primeiro berço. Nico. Ele estava enorme. Não era mais o bebê que eu deixei na igreja. Tinha bochechas gordas, o cabelo escuro estava maior. Ele dormia de barriga para cima, os braços jogados, dono do mundo. Toquei a mãozinha dele. Ele se mexeu, suspirou e segurou meu dedo num reflexo de sono.
Chorei. Chorei molhando a camisa do Dante. Eu tinha perdido tanto... mas ele estava aqui. Vivo.
Dante me levou para o segundo berço. Vittoria. Minha menina. A última imagem que eu tinha era dela chorando nos braços da loucura. Agora ela dormia serena. Tinha crescido também, embora ainda fosse menor que o irmão. A pele estava corada. O peito subia e descia num ritmo perfeito, sem a angústia daquele dia no galpão.

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