Valentina
Dante disse e saímos os quatro cercados de segurança.
Londres à noite é diferente. Não grita. Observa.
As luzes refletem no asfalto molhado. Os prédios parecem antigos demais para se impressionar com novos reis. A cidade não se curva, mede.
E naquela noite, ela estava nos medindo.
A entrada no baile foi silenciosa por meio segundo.
Depois, virou espetáculo.
Cabeças se viraram. Conversas cessaram. O nome Vitale atravessou o salão em murmúrios educados demais para esconder curiosidade.
Eu segurei o braço do Dante com mais força do que pretendia.
- Respira. - ele murmurou. - Eles só estão olhando porque não podem tocar.
Sorri para ele, e tudo foi como Dante nos disse. Os homens olhavam para mim e Sofia como se fossemos um pedaço de carne pronto para ser devorado. Era tão asqueroso ver homens agirem assim mesmo estando acompanhada.
Dante me puxou mais para ele, e Mario fez o mesmo com Sofia que só ria de todo aquele ciúmes possessivo dele.
Foi quando eu a vi.
Beatrice.
Elegante. Impecável. Sorriso treinado.
Ao lado dela, sua assistente Carmella.
E meu corpo lembrou antes da minha cabeça permitir.
A última vez que estivemos assim, ela me provocou a noite inteira. E Beatrice levou Dante embora por "cinco minutos" que viraram quarenta.
O desconforto subiu rápido.
Beatrice se aproximou primeiro.
- Dante... - disse, tocando o braço dele de forma sutil demais para ser inocente.
- Beatrice. - ele respondeu, polido. Recuando meio passo. - Lembra da minha mulher, Valentina.
- Claro. - ela sorriu para mim, antes de perguntar. - Como vai, Valentina Rojas?
Senti a provocação no ato, mas "meu homem" foi mais rápido.
- Vitale. Valentina Vitale, minha esposa, mãe dos meus filhos.
Ela sorriu para ele.
- O Don sempre certeiro como flecha no alvo.
- E rápido, como projétil saindo do cano. - Dante respondeu sem hesitar.
Beatrice pareceu não se abalar, manteve a postura.
- Como eu ia dizendo, sempre é um prazer revê-la, senhora Vitale.
Carmella não perdeu tempo.
- Lembra de mim senhora Vitale, passamos um bom tempo juntas na última vez.
- Como vai Carmella? - perguntei tentando ser educada.
- Bem, obrigado por perguntar. Já esteve em um evento ministerial antes, senhora Vitale? - perguntou, alto o suficiente para ser ouvido. - Londres costuma ser... intimidadora para quem não está acostumada.
Eu sorri.
- Intimidadora é a vida. - respondi. - Salões são só cenários.
Antes que Carmella reagisse, Sofia se adiantou:
- E convenhamos... - minha amiga disse, olhando a mulher de cima a baixo. - Quem está confortável de verdade não precisa testar território.
Carmella engoliu seco. Mario apertou a cintura da namorada em aprovação.
Beatrice pigarreou, tensa.
- Dante, eu queria te apresentar alguém importante. - disse. - Se me acompanhar...
Ela estendeu o braço. Meu corpo enrijeceu.
Memória antiga. Briga antiga.
Mas dessa vez... o ato foi novo.
- Mostre o caminho, Beatrice. - Dante respondeu, entrelaçando o braço no meu. - Minha esposa e eu adoraríamos conhecer tal pessoa.
Eu virei o rosto para ele, surpresa. Dante piscou para mim.
Beatrice congelou por meio segundo.
Foi rápido. Mas eu vi.
E vi mais.
Quando os olhos dela cruzaram os meus, não havia elegância ali.
Havia fúria.
Ela me olhou como se eu tivesse roubado algo que sempre foi dela.
O arrepio voltou e meu marido notou.
- Tá tudo bem, mia vita? - Dante perguntou.
- Está sim, amor. - respondi, me recompondo. - Vamos conhecer a tal entidade.
Ele riu e beijou minha testa.
O casal apresentado se chamava Edward e Margaret Collins. Empresários antigos. Elegantes. Gentis.
Margaret foi um alívio imediato. Conversa leve. Olhar sincero.

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