Valentina
Pensei por mais alguns segundos, deixando as palavras se alinharem.
- Amar o Dante é como morar no olho de um furacão - digo, enfim. - Você sabe que tudo ao redor pode desmoronar, mas ali no centro é o lugar mais seguro que existe. Ao mesmo tempo, sabe que qualquer passo em falso pode arrastar vocês dois para longe demais um do outro. - respirei fundo antes de continuar. - É intenso. É exaustivo. É lindo. É assustador. Mas é o único lugar onde eu existo inteira.
Sofia me olhou como se tivesse acabado de ouvir uma confissão de outro mundo.
- Ok - ela se rende. - Você ganhou. Eu também quero um furacão pra chamar de meu.
- Você já tem - respondi. - Ele atende pelo nome de Mario e confisca chocolate das grávidas.
Ela j**a uma almofada em mim.
- Eu te odeio - diz, rindo.
O riso, porém, é interrompido por um enjoo mais forte. A náusea sobe, rápida, quente, derrubando o pouco equilíbrio que eu tinha reconquistado.
Levo a mão à boca e fecho os olhos.
- Tina? - Sofia muda de tom imediatamente. - Ei, ei, olha pra mim. Respira. Isso, devagar.
- Eu tô bem... - minto, sentindo a testa suar. - Só... o mundo girou de um jeito estranho.
Ela já está de pé, ao meu lado.
- Não, você não tá bem - rebate. - Você tá pálida. E eu vou ligar pro Don.
- Não. - segurei o pulso dela com mais força do que eu sabia que tinha. - Sofia, se você ligar pro Dante agora, ele sobe aqui no meio da reunião, j**a o consultor pela janela, e se alguém reclamar por isso... ele começa a terceira guerra mundial.
Ela faz uma careta.
- Tá, talvez eu queira ver isso.
- Sofia.
Ela suspirou, derrotada.
- Tá bom - cedeu. - Sem ligar para o Don. Mas você vai levantar daí, agora. Vamos pra varanda. Ar frio ajuda. E se você desmaiar, pelo menos eu já sei onde você cai.
- Que conforto - resmunguei.
Com a ajuda dela, me levantei devagar. As pernas estão um pouco bambas, mas não o suficiente para me derrubar.
Caminhamos até a varanda. Ela abriu a porta de vidro e o ar frio de Londres entrou como um tapa no rosto. O mundo lá embaixo continua funcionando. Carros passam, ônibus seguem suas rotas, pessoas andam depressa, como se nada estivesse acontecendo enquanto a minha vida está suspensa num apartamento caro.
Eu me aproximo da grade e apoio as mãos ali. O metal está gelado contra minha pele, mas de um jeito bom, que me ancora.
- Olha isso, Soso - digo, olhando a cidade se desenhar em cinza e vermelho. - Você já tinha imaginado estar aqui um dia?

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