Valentina
O medo tem ecos que ninguém mais escuta, só quem carrega.
Desde que a porta se fechou atrás do Dante, o quarto ficou grande demais. A cama, enorme demais. O travesseiro dele, longe demais.
Ele não foi para outra ala da casa, não foi resolver algum problema no porto de Florença, não foi apenas encontrar um adversário que eu já conheço pelo nome. Ele desceu para uma guerra que eu ainda não consigo enxergar inteira, numa cidade que deixou um cartão na nossa porta avisando que nem todo coração sobrevive à tempestade.
Puxei o travesseiro dele, aproximei do rosto e inspirei fundo.
Cheiro de Dante.
Perfume caro misturado com algo que é só dele. Em qualquer outro dia, isso seria aconchego. Hoje é gatilho.
E se ele não voltar?
A pergunta aparece inteira, sem pedido de licença, atravessando tudo que eu tento organizar na cabeça. Eu fechei os olhos, como se a escuridão fosse suficiente para empurrá-la de volta, mas não é.
Dante sempre volta.
É o que Mario repete, convicto, quando alguém ousa demonstrar preocupação. É o que Teresa diz, fazendo o sinal da cruz. É o que os homens sussurram nos portos, nos becos, quando falam do Don que ninguém consegue derrubar.
Mas nenhuma dessas pessoas conhece o peso que é amar o homem por trás do Don. Nenhuma delas dorme com a pele colada na dele. Nenhuma delas tem dois corações pequenos dentro do corpo, dependendo da volta dele tanto quanto eu.
Levei as mãos à barriga, instintivamente.
- Vocês estão aí, meus amores? - sussurrei. - A mamãe tá com medo, mas vocês não contem pro papai, tá? Ele já tem medo demais do próprio jeito de amar.
Fiquei alguns segundos em silêncio, como se eles pudessem me responder. Senti um movimento leve, um incômodo interno, algo que pode ser imaginação ou só o meu corpo reagindo à ansiedade.
Eu escolhi acreditar que é uma resposta.
- Eu sei - respirei, com a voz embargada. - Vocês também estão com medo dele não voltar.
Uma memória corta minha cabeça, tão nítida que parece cena de filme.
Dante no nosso jardim, o vento de Florença batendo no sobretudo, a mão firme sobre a minha barriga, a voz grave dizendo que prefere ser chamado de louco do que me ver em risco.
Depois minha mente foi até ele me prometendo voltar não só como Don vitorioso, mas como marido. Prometendo que ninguém encosta nos nossos três corações sem pagar caro.
Confiança é uma coisa estranha.
Eu confio nele com tudo o que tenho. Mas não confio no mundo que se levanta contra ele. O relógio na mesa de cabeceira avança devagar demais. Minutos alongados por pensamentos que não param.
Levantei da cama porque ficar deitada ouvindo meu próprio medo respirar não ajuda. Ajustei a camisola, peguei o xale que estava na poltrona e o envolvi nos ombros. O tecido é macio, quentinho, cheira a casa.
Londres, do outro lado da janela, não cheira a nada de bom.
Ouvi a porta interna abrir devagar.
- Tina? - a voz da Sofia veio baixa, quase cautelosa. - Posso entrar ou você tá precisando de um colapso dramático sozinha?
Eu sorri, apesar do aperto.
- Entra, Soso. Se eu for desmaiar, prefiro que tenha plateia.
Ela surge apoiada no batente, cabelo preso num coque malfeito, moletom roubado de alguém que eu suspeito que tenha nome e cargo na segurança direta do Don, calça jeans e aquele olhar que mistura menina e soldado.
- Eu trouxe água, biscoito sem graça e disposição pra te aturar - ela diz, levantando uma garrafinha na mão. - Só não trouxe chá porque depois daquele bilhete, chá virou gatilho coletivo.
- Elisa ia chorar se ouvisse isso - murmurei, me sentando de novo na cama. - Ela fez esse aqui com amor, lembra?
Sofia revira os olhos, mas sorri.

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