Dante
Beatrice cruzou o corredor, acompanhada de Carmella e de um homem que eu ainda não tinha visto. Terno azul-marinho, cabelo penteado demais, sorriso treinado. Cheiro de consultor.
A porta se abriu.
- Don Vitale. - Beatrice entrou vestida em um dos seus vestidos que dizem: sou elegante, mas também sei chamar atenção (em outras palavras sexy). - Desculpe a leve demora. Questões de protocolo lá embaixo.
Levantei, por educação e estratégia.
- Beatrice. - cumprimentei. - Obrigado por abrir essa mesa.
Ela se aproximou, beijou o ar ao lado do meu rosto, o perfume caro tentando se impor ao cheiro de café. O toque dela no meu braço durou um segundo a mais do que o necessário. Eu notei. Mario também.
- Este é o senhor Hargrove. - ela anunciou, apresentando o homem de terno azul. - Sócio sênior da Thorn & Bloom. A consultoria que está ajudando o consórcio a redesenhar a matriz de risco dos portos.
- Don Vitale, é uma honra. - Hargrove estendeu a mão, sorriso de manual. - O senhor é uma figura central no mapa que estamos avaliando.
Apertei a mão dele com a força exata para lembrar que mapa nenhum existe sem dono de território.
- Espero que o mapa seja fiel à geografia real. - comentei. - Às vezes a consultoria gosta de inventar montanha onde só tem morro.
Ele riu, com um som que não chegou aos olhos.
- Nosso papel é evitar que tempestades... - ele fez uma pausa, como se escolhesse a palavra - ...surpreendam quem tem tanto a proteger.
Tempestades.
Mario mexeu sutilmente a caneta na mesa. Eu sou bom em ler minha gente; aquele pequeno gesto dizia muita coisa.
Carmella se sentou ao lado de Beatrice, com uma pasta própria à frente. Quando cruzamos os olhares, ela sorriu como na noite do baile: lâmina embrulhada em cetim.
Todos se acomodaram. A reunião começou.
Hargrove projetou um gráfico na tela à frente: linhas, setas, setorização de riscos. As palavras "exposição", "vulnerabilidade" e "alavancagem" se repetiam como um mantra técnico.
- O ponto é simples, Don. - ele dizia, com o laser apontando para um triângulo onde meu nome estava num dos vértices. - O senhor é ativo e é risco ao mesmo tempo. Seus portos são vitais para metade das rotas desse consórcio. Quando um homem concentra tanto, ele se torna... tentador. Para aliados e inimigos.
- Tento distinguir bem os dois. - respondi. - Funciona, na maioria das vezes.
- Justamente. - ele assentiu. - Nosso papel é garantir que um eventual... - outra pausa estudada - ...evento de estresse, digamos, não atinja os pontos errados. Família, por exemplo. Ou reputação. Ou... saúde.
"Not every heart can survive the storm." (Nem todo coração sobrevive à tempestade.)
A frase do cartão atravessou a sala até bater na tela.
Mario endireitou o corpo, como se tivesse tomado um choque. Os olhos dele foram da tela para a pasta da consultoria, da pasta para mim, de mim para o rosto de Hargrove. Eu capturei o movimento no canto da visão.
- O senhor parece preocupado com o meu coração. - comentei, sem humor. - Que gentil.
Hargrove sustentou o sorriso.
- Não apenas o seu, claro. - respondeu. - Falo de forma figurada. Quando uma estrutura confia demais na força de um único coração, ela fica vulnerável. Às vezes é preciso... - ele buscou a metáfora - ...criar pequenos abalos controlados para que a grande tempestade nunca chegue.
Pequenos abalos controlados.
Beatrice cruzou as pernas. Carmella fez uma anotação que eu não consegui ver, mas vi a caneta sublinhar algo com força.
- "Abalos controlados". - repeti. - Parece mais o vocabulário de quem provoca terremotos do que de quem protege casas.
Carmella sorriu, entrando na conversa.
- O senhor sabe como é, Don. - disse, numa voz tranquila demais para o subtexto. - Às vezes, para domar o mar, é preciso aceitar umas ondas mais fortes. Do contrário, qualquer barquinho se acha navio e atrapalha os grandes.
De novo, metáforas.
Ondas. Tempestades. Corações. Abalos.
Mario já estava em modo caça. O lápis correndo discretamente pela lateral da pasta, anotando palavras, não números.
Eu acompanhei o relatório com atenção. Em determinado ponto, ele distribuiu um documento impresso: uma matriz de risco detalhada da Vitale Shipping.
Olhei os itens.
Portos principais: Florença, Marselha, Le Havre.
Linhas críticas. Parceiros estratégicos. E, numa coluna que deveria estar genérica, vi algo diferente:
"Pontos de pressão:
– Dependência emocional da figura do Don.
– Exposição afetiva recente (casamento, gravidez).
– Percepção pública de invulnerabilidade."
Não era linguagem de consultoria comum. Era pessoal demais. Intencional demais.
Pessoal o suficiente para alguém ter estudado minha vida para além dos números.
Passei o dedo sobre a linha "gravidez" sem abaixar o olhar.
- Isso aqui. - falei, frio. - Desde quando consórcio de portos precisa saber do estado da minha casa?

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