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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 89

Dante

Beatrice.

Na minha cabeça, o nome dela ainda vinha com cheiro de igreja rica: jantares cheios de gente importante fingindo caridade, o marido dela falando de navios-hospital enquanto contava piadas sobre ministros. Uma mulher que sempre soube atravessar salões sem derrubar nenhuma taça, mas derrubando resistências.

Ela tinha sido a ponte. Para negócios, para acordos, para fundos. Para hospitais e portos.

E ponte boa não se desconfia de graça. Especialmente quando você deve ao marido morto dela alguns favores antigos.

Ainda assim, alguma coisa no conjunto estava... desalinhada. Não nela, ainda. No entorno. Nas sombras.

Inspirar. Expirar. Valentina se mexeu de novo, murmurando algo que eu não entendi, mas o tom era de súplica.

Apertei mais o abraço.

- Eu tô aqui. - prometi, mesmo que ela não estivesse acordada para ouvir.

Quando a claridade começou a vazar por trás das cortinas com mais insistência, eu já tinha decidido duas coisas: Primeira, ninguém ali ia me fazer ajoelhar usando poesia barata. E a segunda, eu ia ouvir tudo na reunião. Palavra por palavra. E se alguma metáfora de tempestade aparecesse, alguém ia sair de lá sem guarda-chuva.

O amanhecer foi devagar. Londres não nasce como Florença; não há ouro nas janelas, há cinza nas fachadas. O barulho que subiu do chão foi de carros apressados, não de passarinho.

Eu olhava pela fresta da cortina e, ao mesmo tempo, olhava para ela.

Valentina dormia de lado, o cabelo espalhado no travesseiro, a boca entreaberta, uma mão na barriga. A marca do cartão parecia ainda gravada nos dedos dela, mesmo sem estar lá.

Beleza e guerra, no mesmo corpo.

- Você não sabe, mas é minha maior fraqueza e minha maior arma. - falei, num meio sorriso triste.

Ela acordou sem sobressalto. Os olhos piscando devagar, como quem lembra primeiro do sonho, depois da vida real.

- Que horas são? - a voz saiu rouca.

- Hora de você dizer que não quer que eu vá. - respondi, sentado na poltrona em frente à cama, a gravata ainda solta no pescoço, a camisa semi-aberta.

Ela franziu a testa, tentando focar em mim.

- E você? - perguntou. - O que quer que eu diga?

- A verdade. - respondi. - Mesmo que doa.

Ela respirou fundo.

- Eu não quero que você vá. - disse, simples. - Não quero que você saia por essa porta e deixe metade do meu peito aqui, metade na mesa deles. Não quero você apertando mão de gente que manda cartões idiotas para a porta da nossa casa temporária.

- E o que a mulher que eu amo faria, se fosse ela quem tivesse que ir? - perguntei.

Ela pensou um segundo.

- Ela iria. - admitiu, com um meio sorriso torto. - Morrendo de medo, mas iria. Porque ela sabe que, às vezes, o amor também entra nas guerras para garantir que depois ainda exista casa.

Levantei, fui até a cama, sentei na beira.

- Então eu também vou. - falei, passando a mão pelos cabelos dela. - Mas não como um rei ajoelhado. Eu vou como tempestade. Enquanto eu estiver na mesa, você é a única coisa que eles não tocam. E se tentarem, não vai sobrar sala, nem consultoria, nem consórcio.

Ela segurou meu pulso.

- Eu não quero ser seu ponto fraco, Dante. - murmurou.

- Você nunca foi fraqueza. - corrigi. - É meu centro. O resto que se vire para girar em volta de você.

Os olhos dela encheram de novo. Ela desviou rápido, fingindo que estava incomodada com a luz.

- Não aprende, né? - murmurou. - Toda vez que você fala assim, dá vontade de te trancar e jogar a chave no Tâmisa.

Sorri de canto.

- Me tranca depois da reunião. - propus. - Hoje eu deixo.

Ela riu, e o som fez o quarto parecer menos de hotel e mais de casa.

Foi quando bateram à porta.

Dois toques secos, o jeito Mario de anunciar urgência sem pânico.

- Don? - a voz veio do outro lado. - A sala está pronta. Temos vinte minutos até a primeira chegada.

Olhei para o relógio. O tempo tinha corrido mais rápido do que meus pensamentos.

- Já vamos, Mario. - respondi. - Espera no corredor. E revisa a equipe mais uma vez.

- Sim, Don.

Voltei o olhar para a mulher na cama.

- Temos vinte minutos. - anunciei. - Tempo suficiente para você me dizer que eu estou bonito... e me ajudar a parecer ainda mais perigoso.

Ela arqueou uma sobrancelha.

- Você está parecendo um homem que não dormiu. - avaliou, honesta. - Com um olhar que mataria qualquer um na sala... e uma gravata que grita por socorro.

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