Dante
Passei a manhã inteira fingindo trabalhar. Assinei documentos que não li, ignorei mensagens que exigiam resposta, ouvi relatórios como quem escuta chuva atrás do vidro. Nada ficava. Nada prendia. Cada intervalo entre um e-mail e outro era tomado por um pensamento teimoso: Valentina.
O rosto dela quando quebrou. O tremor do corpo quando veio. O som do meu nome nos lábios dela, baixo, ferido, quase um pedido.
Era para ser simples. Ela tinha uma função. Eu tinha um objetivo. E, ainda assim, minha cabeça retornava ao mesmo ponto como um animal que volta à ferida para lamber. O autocontrole que sempre vesti como segunda pele estava frouxo. E essa fraqueza tinha olhos castanhos e cheiro de sabonete caro misturado ao meu.
O som da porta do escritório veio com dois toques secos.
— Entre. — Minha voz saiu firme, treinada.
Teresa surgiu contida, o avental impecável, o rosto neutro de quem aprendeu cedo que emoções chamam problemas.
— Senhor, o almoço está pronto. —Ela manteve os olhos no limite exato entre respeito e percepção.
— Busque Valentina. — respondi, sem olhar para ela.
— Sim, senhor. - Um aceno breve e a fuga silenciosa que ela executa como quem atravessa um campo minado.
Fiquei sozinho com o barulho do relógio. Um, dois, três... Respirei fundo, deixei o vazio do escritório me engolir por alguns segundos, então empurrei a cadeira e me levantei. O corredor tinha o brilho asséptico de sempre; o mármore devolvia meu reflexo como se eu fosse um estranho. Talvez eu fosse.
No salão, duas funcionárias ainda ajustavam copos e talheres. A mesa longa, o arranjo de lírios, a prata alinhada, uma coreografia de ordem que sempre me agradou. Apoiei a mão na cadeira da cabeceira. O ritual do poder me devolvia ao eixo. Ou deveria.
Ouvi passos. O som distinto de dois pares, um firme, outro hesitante. Ergui o olhar.
Valentina entrou.
O vestido discreto, a postura erguida por teimosia, e os olhos... inchados. Vermelhos. A pele do rosto com marcas das lágrimas. Um aperto miúdo me atravessou o peito antes que pudesse sufocá-lo.
Dei um passo sem pensar. Os dedos quase buscaram o rosto dela.
— O que houve? - saiu de mim, baixo demais, íntimo demais.
Teresa parou. As duas funcionárias congelaram. Valentina também. Em outra vida, aquela pergunta caberia. Nesta, era um erro.
A máscara voltou como ferro. Recolhi a mão como se encostasse numa chama.
— Sente-se. O almoço vai ser servido. — Fiz a cadeira ranger e a voz endurecer, como se pudesse apagar o instante anterior à força.
Dispensei-me de ser cavalheiro, ela mesma puxou a cadeira. Orgulho teimoso. Orgulho que eu reconheço, porque o carrego.
Sentamos. Eu me servi devagar; o gesto milimétrico trazia a ilusão da calma. Ela segurou o garfo, olhou o prato como quem encara uma sentença. As funcionárias vinham e iam, silenciosas, aprendidas no ofício de serem invisíveis. O som de talher no prato era o único ruído.
— Coma. — ordenei, sem encará-la.
— Não estou com fome. - firme, porém fosco.
— Eu não perguntei se estava, eu mandei comer. — Tomei um gole de água, não de uísque. Precisava da cabeça clara, não de coragem líquida.
Ela inspirou, contrariada. Quando levou a mão à travessa, a minha se adiantou para a mesma alça. O toque breve da pele dela na minha queimou desproporcionalmente. Valentina puxou a mão rápido, como se eu fosse um perigo. E eu sou.
Terminamos o prato em um silêncio pesado, interrompido apenas por meus comandos sucintos, "água", "retirem", "café". Permaneci em silêncio, enquanto minha mente rodava um inventário do que não devia fazer: não olhar demais, não tocar, não explicar, não ceder.
Quando a mesa foi liberada e o salão respirou vazio, empurrei a cadeira para trás.
— Venha. — disse, sem doçura.
— Aonde? — A sobrancelha dela ergueu meio milímetro, insolente.
— Conhecerá a casa. — mantive meus olhos nos dela. — E as fronteiras.
Atravessamos o corredor principal. Os passos dela tentavam acompanhar o ritmo que eu impunha, mas eu reduzi sem anunciar. Não por gentileza. Por cálculo. Um guia que não admite parecer cuidado.

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