Valentina
O silêncio depois da porta se fechar era mais alto do que qualquer grito. Eu estava ali, deitada na cama, o vestido ainda amarrotado, a respiração curta, o corpo trêmulo. O cheiro dele preso na minha pele, o gosto dele ainda na minha boca.
Dante Vitale tinha me deixado. Sem uma palavra a mais. Sem um olhar. E, mesmo assim, eu não conseguia parar de sentir.
Passei as mãos pelo rosto, tentando apagar a memória do que acabou de acontecer. Mas não havia como apagar. Porque não tinha sido só um toque. Não tinha sido só desejo. Tinha sido algo que eu nunca tinha vivido.
Ainda deitada na cama, um nome veio à minha mente.
Giovanni...
Com Giovanni eu sempre me contive. Sempre. Ele nunca insistiu. Nunca me tomou nos braços como se o mundo pudesse acabar. Nunca me fez perder o fôlego. Eu o entregava pedaços, mas guardava um pedaço de mim que acreditava ser intocável.
E, mesmo assim, Giovanni me vendeu. Por que isso ainda dói? Talvez porque ainda esteja quente...
Mas, mesmo com Giovanni ainda fervendo em minha mente, outro nome surgiu.
Dante...
Ele entrou sem pedir licença. Me incendiou sem promessa. E meu corpo... meu corpo traiu cada palavra de ódio que eu tinha preparado.
A forma como ele me olhou, como me tocou, como sussurrou no meu ouvido... era perturbadora. Era cruel. Mas também era maravilhosa. Uma violência de sensações. Uma confusão de tudo o que eu achava que sabia sobre mim.
Meu corpo respondeu a ele. Respondeu de um jeito único, intenso, avassalador. Eu nunca tinha sentido aquilo antes. Nunca.
Fechei os olhos e me vi arqueando sob ele, sentindo a onda vir, o calor subir, o prazer me romper em pedaços que eu não sabia que existiam. Eu tive o primeiro orgasmo da minha vida com ele. Com Dante Vitale. O homem que eu deveria odiar.
As lágrimas queimaram meus olhos, mas não caíram. Ainda não.
Levantei devagar. As pernas pareciam feitas de cera. Segurei o vestido, puxei-o para baixo, tentando recuperar alguma dignidade que não existia mais.
Dante havia ido embora. Simplesmente se afastado. Como se eu fosse nada. Como se o que aconteceu não tivesse significado. E isso doeu mais do que tudo.
Não era só o toque. Era a ausência. O frio que ele deixou quando saiu do quarto.
Passei os dedos pelos lábios, lembrando do beijo dele. Um beijo impositivo, mas também... algo que eu não queria nomear. Respirei fundo, caminhei até a porta. Queria sair dali. Precisava sair dali.
Atravessei o corredor em silêncio. Meus passos ecoavam no mármore, cada um deles um esforço para não desmoronar. Entrei no quarto que agora chamava de "meu".
Mas não era meu. Não era nada. Era só uma prisão luxuosa com lençóis brancos e cheiro de sabonete caro. Fechei a porta atrás de mim e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro no máximo.
A água quente caiu sobre mim, mas não lavou nada. O cheiro dele ainda estava na minha pele. O gosto dele ainda estava na minha boca. Comecei a me esfregar para apagá-lo, se eu era um nada para ele, não permitiria que ele fosse algo para mim.
— AAAAAAH - gritei enquanto me esfregava com força, queria tentar arrancar Dante Vitale de mim, mas era impossível... ele já estava grudado em mim. Deixei a bucha cair, encostei na parede de azulejo, e escorreguei meu corpo até o chão. Abracei meus joelhos e, pela primeira vez desde que cheguei à Mansão Vitale, eu chorei.
Não foram lágrimas de medo. Nem de tristeza. Foram lágrimas de frustração. De raiva. De sentir algo por quem eu deveria odiar.
O som do choro se misturava ao barulho da água. Eu não era só um corpo vendido. Não era só uma barriga para carregar um herdeiro. Eu ainda era eu. E isso doía mais do que qualquer humilhação.
Quando cansei de sentir raiva dele, e pena de mim mesma, desliguei o chuveiro. Me olhei no espelho do banheiro. O rosto inchado, os olhos vermelhos. Mas ainda havia fogo no meu olhar. Enrolei-me na toalha, respirei fundo, voltei para o quarto.
Teresa estava lá. Ela olhou para mim e, pela primeira vez, vi algo diferente no rosto dela. Não era frieza. Era... preocupação.
— Valentina... - ela disse, num tom quase suave. —Você chorou?
Eu não respondi. Apenas caminhei até a cama, sentei-me, a toalha ainda presa ao corpo.
- Não precisa fingir comigo - Teresa continuou, aproximando-se. - Eu sei que não é fácil.
Olhei para ela, surpresa.
- Você não faz ideia. - Minha voz saiu baixa. - Eu não sei mais quem sou aqui dentro.
Ela se sentou na beira da cama.

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