Dante
— Nesta casa, o que salva é obedecer!
Recomecei a caminhar. Valentina se manteve diante da minha porta, quando me virei para ela, com um olhar duro. Ela veio, como um raio para o meu lado.
Descemos pela ala oeste até o claustro. Uma sequência de arcos, o pátio com a fonte clara, o rumor de água como único som permitido. Apontei dois corredores opostos.
— Por aqui: cozinha, lavanderia. — Continuamos. — Aqui, alojamentos do staff. Você não entra sozinha.
— Porque? Vai que um de "seus" homens seja divertido.
— Eles não são.
— Como sabe? — ela rebateu.
— Eu sei! — Minha voz saiu dura, fiz uma pausa antes de concluir. — Respeito é uma via de mão dupla, Valentina, não se esqueça.
— E por que eu respeitaria você? — Ela plantou a pergunta no chão entre nós.
— Porque você gosta de estar viva. — devolvi. — E porque descobriu mais cedo do que eu planejei, que posso ser pior do que pareço quando alguém me testa.
Ela respirou curto. Eu também.
— "Pode" ou "é"? — insistiu, sem recuar.
— Valentina, não jogue xadrez com dinamite. — roubei meu próprio tom de conselho e transformei em ameaça. — Vou entregar as regras. Decore-as.
Encostei na borda fria de um pilar e enumerei, como quem dita sentença:
— Um: você não sai sozinha desta mansão. O portão só se abre para você se eu autorizar e com a minha escolta. Dois: você não conversa com ninguém de fora sem passar por Teresa ou por mim. Telefone, internet, correspondência, tudo filtrado.
— Mas... — ela tentou, mas um único olhar a calou.
— Três: você não ignora ordens diretas. Eu digo "pare", você para. Eu digo "coma", você come. Quatro: você não tenta fugir. A tentativa terá consequências que não discutirei duas vezes.
— O que eu sou? Um robô?
— Por que ainda está me interrompendo? — perguntei irritado, mas não esperei resposta. — Cinco: você cuida da sua saúde. Médica às quartas. Alimentação, sono, exames. Um herdeiro não nasce de um corpo negligenciado. Seis: se precisar de algo, pede. Se manipular, perde. — Cruzei os braços. — Entendeu?
Ela me encarou. Não havia medo nos olhos, havia fogo. Diferente, perigoso, teimoso.
— Entendi que você adora ouvir a própria voz. — respondeu, baixa.
Inclinei o rosto. A sombra do arco cortou metade do meu perfil; a outra metade era luz.
— Se está tentando ser engraçada, está falhando. Perguntei se entendeu, porque eu não vou repetir.
— Eu não sou uma criança. — Ela avançou meio passo. — E não sou sua coisa. Não sou sua posse. Não sou só uma barriga ambulante.
— Você é o que eu digo que é, até que eu decida o contrário. — eu disse em um tom que não deixasse dúvidas.
— Não. — A negação veio limpa. — Eu sou o que eu digo que sou. E, por acaso, hoje eu digo que sou alguém que não vai se dobrar só porque você gosta da palavra "meu".
Um músculo saltou na minha mandíbula. O mundo estreitou até virar a distância entre nossas bocas.
— Aqui dentro, Valentina... — pronunciei cada sílaba, como martelos na bigorna — você não tem direitos. Só ordens.

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