Dante
"Not every heart can survive the storm."
Nem todo coração sobrevive à tempestade.
A frase ficou presa na minha mão mesmo depois de eu amassar o cartão. Como se as letras fossem farpas que atravessam o papel e tentam achar carne.
Tempestade.
Eu já vi muitas: no mar, nos portos, na cabeça dos homens. Mas nunca nenhuma tão covarde quanto essa, desenhada para atingir o lugar mais vulnerável que eu já tive: a mulher deitada agora na cama do hotel, com dois corações pequenos brigando por espaço dentro dela.
Valentina não dormiu logo. Nem poderia.
Depois que eu fechei a porta do apartamento e mandei os homens revistarem tudo de novo, paredes, banheiro, tomadas, frestas, o inferno inteiro, ela sentou na beira da cama, olhando para o nada. O vestido ainda no corpo, o xale caído no chão. As mãos tremiam pouco, mas eu conheço os tremores dela: aquele era o tipo que nasce no medo e termina em raiva.
Aproximei devagar, como quem chega perto de pólvora com fósforo apagado.
- Valentina... - chamei, sentando ao lado. - Olha pra mim.
Ela demorou alguns segundos, como se tivesse que atravessar um corredor longo por dentro até chegar aos meus olhos. Quando chegou, o que eu vi doeu mais do que qualquer ameaça impressa em papel caro.
- Eles estão falando dos bebês. - a voz saiu fina, mas firme. - "Nem todo coração sobrevive à tempestade"... eles estão falando deles.
Levei a mão ao rosto dela, segurando com o cuidado de quem segura vidro e universo ao mesmo tempo.
- Eles acham que estão. - corrigi, baixo. - Mas não conhecem você. Não conhecem a gente. Não fazem ideia de quantas tempestades você já atravessou antes de me encontrar.
Os olhos dela encheram, mas não transbordaram.
- E se... - a frase engasgou - ...e se essa for grande demais?
Respirei fundo. Não sou homem de promessas vazias; sou homem de guerras anunciadas. Ainda assim, naquele momento, mais do que Don, eu era marido. E marido, às vezes, precisa prometer coisas impossíveis só para o medo calar por alguns minutos.
- Enquanto eu respirar, ninguém encosta em você. - falei, cada palavra um pacto. - Já te tirei de corredor errado, de ex errado, de vida errada. Agora vou te tirar da mira desses covardes também. E se a tempestade vier... a gente atravessa junto. Três corações, lembra?
Minha mão desceu para a barriga dela. Ela cobriu meus dedos com os dela, num gesto pequeno que valeu mais do que qualquer contrato.
- Três corações. - repetiu, num sussurro. - Mas só um corpo. O meu.
- Que, por acaso, pertence a mim. - rebati, tentando puxar um mínimo de normalidade. - Então eles vão ter que negociar com o Don, não com a mulher assustada.
Ela bufou um riso curto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia