Valentina
Dante desviou o olhar de mim por um segundo, como se aquela pergunta tivesse acertado um ponto sensível.
- Eu acho que... - suspirou - ...tem gente que confunde amor com posse, com culpa, com ego. Giovanni é um desses. O que ele sente por você não é amor. É dívida. Ele sabe o que fez. E tenta pagar em prestações de atenção atrasada.
Eu fiquei em silêncio. Parte de mim ainda lembrava do rapaz que me prometeu o mundo e me entregou uma venda. Parte de mim agora sentia um chute na barriga só de ouvir o nome dele.
- Seja lá o que for, não é mais problema meu. - concluí, mais para mim do que para ele.
- Não é. - Dante concordou. - Mas é problema de segurança. E isso, amore, é comigo.
O carro saiu das vias mais abertas e entrou em ruas menores. Vi uma ponte ao longe, o rio Tâmisa corria pesado, como se carregasse todos os segredos da cidade.
Foi aí que eu notei a primeira coisa estranha.
Um carro preto, comum demais, atrás de nós. Não era um dos da escolta. Mario olhou pelo retrovisor interno, o olhar afiado.
- Está vendo? - Dante perguntou, sem virar a cabeça.
- Sim. - Mario respondeu. - Está com a gente desde a saída do aeroporto.
Meu coração deu um salto.
- Pode ser coincidência. - arrisquei, tentando agarrar qualquer normalidade.
- Em Florença, talvez. - Dante cortou. - Em Londres... ninguém me segue por tanto tempo por acidente.
Ele pegou o celular, digitou algo rápido. O aparelho de Mario vibrou quase ao mesmo tempo. Ele leu, assentiu, mexeu em algo no painel.
- Vamos para a rota B. - informou. - A partir da próxima esquina, mudamos o trajeto.
O carro fez a curva. O trânsito engoliu parte da vista. Eu virei o rosto discretamente, tentando ver se o outro carro seguia.
Seguiu.
Senti o sangue gelar.
- Rota C. - Dante ordenou, agora mais frio. - Agora.
Mario trocou algumas palavras rápidas em italiano com o motorista da frente pelo rádio. Mais duas curvas, um retorno improvável, uma rua estreita.
O carro preto hesitou. Parou no meio da via, como se tivesse perdido o rastro. Depois, recuou devagar e sumiu na outra direção.
Só quando o perdi de vista meu corpo lembrou como era respirar. Sofia, que estava ao lado de Mario, me lançou um olhar que perguntava: "Vamos ficar bem?", e essa nem eu conseguia responder.
- Você viu? - perguntei, a voz fina demais para o meu gosto.
- Vi. - Dante respondeu, sem tirar os olhos da frente. - E não gostei.
- Pode ter sido só...
- Não vamos brincar de minimizar. - ele cortou, mas sem gritar. - Giovanni estava certo sobre uma coisa: há movimentos. Há olhos.
O nome ecoou dentro de mim como um eco estranho. Meu celular vibrou dentro da bolsa. Eu gelei.
Olhei para Dante.
- Posso...?
- Pega. - ele disse, sem hesitar. - Mas na minha frente.
Abri a bolsa, tirei o aparelho. Uma nova mensagem. Número sem nome... mas eu não precisava de identificação para saber.
Giovanni.
"Vocês já foram vistos."
Meu estômago virou. Dante viu a expressão no meu rosto e estendeu a mão. Eu entreguei o celular sem discutir.
Ele leu a mensagem, a mandíbula travando mais a cada segundo.
- Ele está nos rastreando? - perguntei, a voz baixa. - Como...
- Não diretamente. - Dante respondeu, os olhos escurecendo. - Se estivesse, teria dado mais detalhes. Isso é coisa de quem está ouvindo outra conversa. Ou de quem tem alguém olhando de fora e repassando.
- O que isso quer dizer?
Ele devolveu o celular para mim, mas não soltou de imediato.
- Quer dizer que Giovanni está perto demais de alguém que sabe por onde eu ando. - respondeu. - E que Londres está ainda mais suja do que eu achava.
Mario olhou pelo retrovisor.
- Don...
- Nada de pânico. - Dante cortou, firme. - Só ajusta o plano. Vamos direto para o hotel. Nada de parada no escritório hoje. Reunião muda de lugar. Quem quiser falar comigo, que suba.
- Entendido. - Mario assentiu.
Encostei a cabeça no banco, fechando os olhos por um segundo. O cansaço bateu junto com a náusea e a avalanche de informações.
Dois bebês. Uma cidade cinza. Um ex que avisa. Um marido que vira campo de batalha por dentro enquanto finge estar em controle por fora.

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