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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 85

Valentina

Algumas viagens não começam no aeroporto. Começam no silêncio depois de uma ligação.

Desde que Dante desligou o telefone com o Mario, o ar em volta dele mudou. Não é o Don em guerra aberta, aquele que grita ordens e derruba mesas.

É o Don em silêncio.

E esse, eu já aprendi, é muito mais perigoso.

- Amor... - chamei baixinho, ainda no closet, com o peito encostado no dele, os dedos agarrados na sua camisa como se eu fosse âncora e náufraga ao mesmo tempo. - Você tem certeza que quer ir hoje?

Ele respirou fundo, como se estivesse puxando o mundo junto. Passou a mão devagar pelas minhas costas, depois desceu até a curva da cintura, parando na barriga.

Dois.

Sempre dois, agora.

- Não quero. - respondeu, honesto, sem tentar dourar a palavra. - Nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Mas preciso.

- Porque Londres é...

- Tabuleiro. - ele completou. - E eu ainda tenho peças lá. E inimigos demais mexendo nas que são minhas.

Encostei a testa no peito dele, ouvindo o coração bater num compasso que eu já reconheço: raiva contida, medo disfarçado, amor amarrando tudo com mão firme.

- Só me promete uma coisa. - pedi, sem tirar o rosto dali.

- Qualquer uma. - ele falou rápido demais.

Sorri fraco. Dante prometia o mundo sem medo, mas eu aprendi a pedir o que cabe na mão.

- Me promete que, se em algum momento você sentir que é perigoso demais, você não vai bancar o herói, nem o Don invencível. - levantei o rosto, obrigando-o a me olhar. - Me promete que me traz de volta. Mesmo que seja no meio. Mesmo que pareça derrota.

Os olhos dele endureceram antes de amolecer. É estranho ver um homem que manda em portos, homens e armas tentar achar as palavras certas para responder a uma mulher com dois bebês e um medo enorme dentro da barriga.

- Eu não sei perder, Valentina. - admitiu. - Mas se a partida for entre a minha honra e a sua vida... eu escolho você. Sempre.

- E os bebês. - corrigi.

Os dedos dele apertaram de leve a minha cintura.

- E os bebês. - repetiu. - Os três corações.

Ficamos alguns segundos ali, respirando no mesmo ritmo, antes de o mundo bater na porta.

- Don? - a voz de Mario veio de fora, firme, educada. - O carro está pronto.

Dante beijou minha testa, depois minha boca, rápido demais para matar, lento demais para ser casual.

- Temos um avião esperando, mia vita. - murmurou. - E uma cidade inteira que ainda não sabe que está na minha mira.

Descer as escadas da mansão nunca pareceu tão definitivo.

Teresa estava parada na base, avental impecável, olhos vermelhos que fingiam não estar. Elisa, logo atrás, com uma bandeja nas mãos e um rosário escondido na outra. Sofia encostada no corrimão, com aquele sorriso de guerra, brilhante demais para enganar quem a conhece.

- Eu trouxe sanduíches leves para a viagem. - Teresa anunciou, como se combater o mundo com pão e afeto fosse seu dever. - Nada de sal demais, nada de gordura demais. Só amor demais, isso eu não controlo.

Sorri, descendo o último degrau com calma.

- Se der tudo errado, a gente j**a o pão na cara de quem vier. - Sofia tentou brincar, se aproximando para me abraçar. - Glúten dói quando acerta o olho.

Eu ri, porque rir ainda é uma forma de fazer o medo esperar um pouco.

- Você vai cuidar da casa para mim? - perguntei. - Se ouvir qualquer barulho estranho, já sabe: chama o exército, a OTAN, o Papa...

- ...e o Don. - ela completou, olhando de rabo de olho para Dante. - Nessa ordem.

Dante desceu logo atrás de mim, impecável de terno escuro e sobretudo pendendo sobre o braço. Don completo. O homem que me fez dizer sim em Paris ainda estava ali, escondido sob a roupa de guerra.

- Teresa. - ele chamou.

- Don? - ela engoliu seco.

- Mantém tudo como se nós estivéssemos aqui. - ordenou. - Rotina igual. Ninguém entra, ninguém sai sem passar pelo Mario. A Valentina quer voltar para casa... e eu quero encontrá-la exatamente como deixou.

Teresa assentiu, os olhos marejados.

- Nossa menina vai voltar, Don. - disse, como se pudesse garantir com fé o que a medicina não promete. - Ela, o senhor... e os bebês.

Minha garganta fechou.

Elisa se aproximou com a bandeja. Em cima, uma caneca térmica e um pote com algo marrom suspeito.

- Chá de camomila com gengibre. - ela explicou, antes que eu perguntasse. - Para enjoos. E para lembrá-lo que nem todo chá no mundo é maldição.

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