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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 84

Dante

Ela respirou fundo, os olhos marejando sem espetáculo.

- Eu só... não queria ser o motivo de você matar mais uma pessoa. - confessou. - Já tem sangue demais na sua conta só por ser Don... não quero que tenha por minha causa também.

Aquilo me feriu num lugar que ninguém mais alcança.

Segurei o rosto dela entre as mãos, com cuidado, polegares no caminho das lágrimas que ainda não tinham caído.

- Olha pra mim. - pedi.

Ela olhou. Sempre olha, mesmo quando tem medo.

- Não existe "por sua causa". - falei, devagar. - Quem escolheu virar meu inimigo fez isso antes de te conhecer. Quem ameaça você, ameaça tudo o que eu tenho de mais decente. Não é você que aciona o gatilho, Valentina. Sou eu. E eu sempre vou escolher isso em vez de te perder. Sempre.

Ela respirou fundo, o lábio inferior tremendo um pouco.

- E se... - hesitou - ...e se eu te disser que também tenho medo do que essa versão sua faz com você mesmo?

Quis rir. Não de deboche, mas de incredulidade.

- Como assim? - perguntei.

- Cada vez que você mergulha mais fundo nesse poço - ela explicou, a voz baixa - nesse Don que decide quem vive e quem morre, quem paga e quem escapa... você volta mais pesado. Dorme menos. Sorri menos. Fica mais longe. Eu sei que você faz por nós, mas... às vezes eu tenho medo de acordar um dia e perceber que a única coisa que sobrou do Dante que eu amo é esse homem cansado, sentado na cadeira de Don, contando cadáveres.

Aquilo entrou em mim como faca.

Não porque fosse mentira. Mas porque era verdade demais.

Me aproximei mais, até que nossos joelhos se encostassem. Segurei as mãos dela, tirando o tecido do caminho.

- O Dante que você ama só existe porque tem você, mia vita. - respondi. - Se eu fosse só Don, eu já tinha me transformado num monstro que nem eu suportaria olhar no espelho. Cada vez que eu volto mais pesado, é a sua voz que tira parte do peso. Cada vez que eu me perco, é você que me puxa de volta. Então não me tira a chance de lutar pelo que é nosso... escondendo informações.

Ela fechou os olhos, deixando as primeiras lágrimas escorrerem.

- Eu errei. - admitiu, sem drama. - Eu sei que errei.

Beijei um dos dedos dela, devagar.

- Sim. - confirmei. - Errou. Não por ter respondido, mas por ter pensado que podia carregar isso sozinha.

Soltei as mãos, deslizei os dedos até a barriga dela, repousando a palma com cuidado sobre o tecido. Dois mundos debaixo da minha mão.

- Tudo o que diz respeito a esses dois... - falei, olhando para o ponto onde imagino os corações - ...não é mais "meu" ou "seu". É "nosso". E, quando é "nosso", não cabe segredo.

Ela assentiu, limpando o rosto com as costas da mão.

- Eu prometo. - disse, num fio de voz. - Nada mais que te envolva assim, que envolva os bebês, vai ficar só comigo.

- Promete em espanhol. - pedi, porque às vezes eu preciso ouvir a fé numa língua que doa mais em mim.

Ela sorriu de leve, mesmo com os olhos ainda molhados.

- Lo juro. - sussurrou. - Lo prometo.

Suspirei, sentindo alguma coisa dentro de mim destravar.

Puxei-a devagar para ficar de pé. Minha mulher em frente a mim, o closet ao redor parecendo menor que a tensão que ainda existia.

Aproximando o rosto, encostei a testa na dela.

- Eu também te devo uma promessa. - murmurei.

- Qual? - perguntou, num sussurro.

- Prometo distinguir ciúme de perigo. - respondi. - Não vou derramar sangue só porque outro homem pronunciou seu nome. Vou derramar quando esse nome estiver ligado a estratégia, ameaça, risco. Giovanni... é todos os três agora. Não por ser seu passado, mas por estar no lugar errado, com as pessoas erradas, vendo coisas demais.

Ela respirou fundo, os olhos fechando.

- Eu não queria que ele morresse por minha causa. - repetiu, num tom quase infantil.

Beijei o canto da boca dela, como se selasse a frase.

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