Dante
Segredos nunca entram em casa sozinhos. Eles sempre trazem cheiro de alguma coisa: medo, culpa ou alguém.
Quando ouvi a frase "Manterei isso em segredo por enquanto", eu parei na porta do closet.
Não foi o conteúdo. Foi o tom.
Valentina não fala com esse tom para qualquer coisa. Ela fala assim quando está se protegendo de mim... para me proteger.
Recostei no batente, ombros largos ocupando a moldura, e deixei a voz sair baixa, controlada, na medida certa para cortar sem gritar.
- Você não vai conseguir manter segredo. - repito, agora dentro, agora dono do que ouvi. - Porque vai me contar agora.
Ela e Sofia viraram ao mesmo tempo. Duas expressões muito diferentes.
Sofia, olhos arregalados, culpa escrita da cabeça aos pés. Valentina, queixo erguido, olhar firme... mas eu conheço o tremor por trás da coragem. Ela pode enganar o mundo inteiro com esse rosto, mas não a mim.
Fiz o que qualquer Don inteligente faz antes de entrar numa guerra: delimitei território.
- Sofia. - chamei, sem tirar os olhos da minha mulher.
- Don... - ela murmurou.
- Nos deixa a sós. - pedi, sem dureza, mas sem opção.
Ela olhou para Valentina em busca de um salvo-conduto. Minha mulher assentiu de leve.
- Vai, Sofi. Está tudo bem. - disse, num tom que tentava tranquilizar as duas coisas erradas: a amiga e o próprio peito.
Sofia respirou fundo, levantou-se, ajeitou a saia que não precisava de ajuste nenhum.
- Qualquer coisa, eu estou lá fora. - avisou, antes de passar por mim como um gato acuado passando por um leão.
Fechei a porta atrás dela. O clique pareceu mais alto do que deveria.
Ficamos só nós.
Valentina sentada no puff do closet, cercada por vestidos, malas semiabertas, tecidos dobrados por amor. A imagem seria banal, se eu não soubesse que o silêncio entre nós estava cheio de dentes.
Dei alguns passos para dentro, devagar. Não sou homem de avançar sem mapa. Nem em porto, nem na minha casa.
- Quer começar você... ou quer que eu pergunte? - ofereci, a voz baixa.
Ela engoliu seco e apertou um pedaço de tecido entre os dedos como se precisasse segurar em alguma coisa que não fosse eu.
- Dante... - começou, e o meu nome na boca dela já é meio armistício. - Não é o que você está pensando.
Sorri de canto. Não foi o sorriso bonito. Foi o outro.
- Amore, eu nem te disse ainda o que estou pensando. - respondi. - Você não faz ideia de até onde minha cabeça vai quando escuta a palavra "segredo" vindo de você.
Ela fechou os olhos por um segundo, inspirou fundo, ajeitou o cabelo atrás da orelha num gesto automático.
- Eu ia te contar... - murmurou. - Só não agora.
- Quando então? - perguntei. - Depois que o avião pousasse em Londres? Depois que alguém atirasse? Depois que um dos nossos filhos parasse de lutar? Qual era o prazo do seu "por enquanto", Valentina?
Não aumentei o tom. Não preciso. O perigo, em mim, nunca vem no grito. Vem no controle.
Ela levantou o olhar, encontrando o meu. E ali estava ela, inteira: a mulher que me enfrentou no dia em que nos conhecemos, que me odiou antes de me amar, que me jogou verdades na cara quando ninguém tinha coragem de sussurrar meu nome.
- Você está com raiva de mim? - perguntou, sem rodeios.
Pensei por um segundo.
- Estou. - admiti. - Mas não é o tipo de raiva que você está acostumada a ver em mim.
- Qual é? - insistiu.
Dei mais um passo. Agora estávamos a um braço de distância.
- É raiva de saber que você tem medo de mim... na hora errada. - respondi. - Você confia em mim para colocar um anel no seu dedo, um filho no seu ventre, a vida no meu sobrenome... mas não confia que eu sei ouvir uma mensagem de Giovanni sem quebrar o mundo na mesma hora.
Ela empalideceu.
- Como você sabe que é sobre o Giovanni? - sussurrou.
Inclinei a cabeça.
- Você acabou de confirmar. - respondi, seco.
Ela mordeu o lábio, prendeu a respiração. A culpa, às vezes, tem cheiro de infância e orfanato. Reconheço o aroma na pele dela.
Estendi a mão, palma aberta.
- O telefone, Valentina. - pedi. - Agora.
Ela hesitou meio segundo. Meio segundo demais. Mas acabou alcançando o celular sobre o banco do closet e colocou na minha mão.

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