Valentina
Uma semana.
Sete dias desde que descobri que carrego dois corações dentro de mim, um que b**e como tambor e outro que resiste como um sussurro.
Sete dias desde que Dante começou a dormir menos do que o aceitável para um ser humano e mais do que o recomendado para um marido paranoico.
Sete dias desde que eu decidi acreditar que esperança é verbo, não substantivo.
E para ajudar, hoje, Dante precisa ir para Londres. E isso significa uma guerra nova.
Ele está parado à minha frente, camisa branca dobrada nos antebraços, relógio no pulso, olhar fechado. Postura de Don. Coração de marido. Ele é as duas coisas, e a tensão entre elas atravessa o ar.
- Não vou deixar você aqui - ele repete, pela terceira vez nas últimas duas horas. - Nem por vinte e quatro horas. Nem por dez. Na verdade, nem por dez minutos.
Cruzo os braços, não por desafio, mas porque preciso me manter inteira para não ceder ao cuidado dele como alguém que se esparrama num tapete quente.
- Dante... - digo devagar. - Eu vou ficar bem. Você já quadri... - cortei a palavra, e a reformulei. - Quintuplicou, se é que é possível isso, a segurança. Tenho duas mães, uma melhor amiga, câmeras, duas médicas. - bufei.
Os olhos dele estreitam. O maxilar trava. Ele é tão bonito quando tenta ser inquebrável que chega a ser indecente.
- Eu disse não, Valentina. Não enquanto um dos nossos filhos estiver em risco - ele rebate.
- Por isso mesmo! - retruquei levantando as mãos.
- Amore mio. - ele falou se aproximando. - A médica vai dizer se está seguro ou não; se ela disser não, é sentença, nem mesmo eu irei. - Ele me devolveu.
- Dante, eu te entendo. Se fosse antes, eu derrubaria a casa para ir junto. - Ele riu de canto sabendo que eu faria isso mesmo. - Mas agora... - coloquei a mão na minha barriga e não consegui terminar a frase.
Ele respira fundo, como quem tenta enfiar o universo inteiro de volta dentro do peito. Fechou a distância entre nós, levou a mão ao meu rosto e o acariciou com o polegar.
- Mia vita... eu não quero ficar longe de você. Não agora. Não depois de tudo. Não depois do bilhete. Não depois do medo. Não depois do ultrassom que me ensinou que amor às vezes vem em duplicidade.
Ele fecha os olhos por um segundo e encosta a testa na minha.
- Sei dos riscos, e eu vou quebrar o planeta se algo acontecer com vocês - ele sussurra, e eu sinto a ameaça latejando como um trovão dentro de um copo de água. - Mas não vou me afastar... nunca mais.
Eu suspirei, foi a única coisa que consegui fazer. Eu também não queria ficar, mas precisava pensar nos bebês... principalmente no meu lutador.
- Tudo bem, você venceu, Don Vitale. Mas se a Chiara não... - ele não me deixou terminar, me beijou, e me perdi nele.
- Não vamos... - ele murmurou ainda com a boca na minha. - Sem o ok dela, não saímos daqui.
- Combinado. - respondi baixo.
- Eu te amo... - essa era a frase de "combinado" dele.
Batidas na porta chamam nossa atenção.
- A doutora chegou. - Teresa nos avisa, e ambos assentimos.
Entramos no nosso consultório improvisado, e Chiara já estava ali com um sorriso contido, pasta em mãos, postura de quem sabe que está pisando num território onde amor e medo dividem fronteiras.
- Bom dia, Tina. Don Vitale.
Dante muda imediatamente. O homem cede espaço ao Don. Ele posiciona uma mão na minha cintura, não de posse, mas de sustentação. Eu não sei se ele me segura ou se precisa ser segurado.
- Chiara - ele diz. - Precisamos saber se ela está apta para viajar a Londres.
A médica sorri, mas seus olhos avaliam cada detalhe: minha pele, minha respiração, o modo como apoio o peso no corpo.
- Vamos começar - ela anuncia.
Eu me sento. Dante permanece de pé, ao meu lado. Chiara mede minha pressão, examina meus pulsos, analisa pele, olhos, reflexos, perguntas rápidas e diretas:
- Enjoos intensos?
- Poucos.
- Sangramento?
- Não.
- Fadiga? - Dou um sorriso pequeno.
- Sou a esposa do Don. Fadiga é rotina.
Dante lança um olhar que diz você quer mesmo brincar com isso agora? Eu respondo com outro que diz sim.
A médica sorri como quem assiste à peça completa.
- O bebê forte está perfeito - ela confirma. - Crescimento adequado, sinais excelentes.
Sinto o ar que Dante prendia escapar devagar. Então ela vira a página do prontuário.
- O segundo... continua pequeno - diz com ternura. - Mas está vivo. E está lutando. E só se passaram uma semana, nosso pequeno precisa de tempo.
Minhas mãos tremem. Dante aperta minha perna e me acaricia com o polegar. Nós dois paramos de respirar por um momento.
- Com os cuidados certos - continua Chiara - há chance dele se fortalecer. Não existe garantia, mas existe caminho.
Ele fecha os olhos. Só por meio segundo. Mas eu vejo.
- O risco da viagem? - Dante pergunta, voz baixa, de aço.
- Moderado. Controlável. - ela responde. - Com repouso, sem esforço, sem estresse.
Dante ri. Um riso de descrença.
- Estresse é algo recorrente na vida dela... - ele ironiza. - Acho que desde que entrei nela.
Eu cutuco sua barriga com o dedo.
- Você é meu estresse preferido.
Ele não sorri. Mas algo dentro dele suaviza, imperceptível, mas real.
Chiara recolhe os materiais, organiza documentos, olha para nós com firmeza de quem sabe que uma decisão vale mais do que qualquer exame.
- Valentina pode viajar para Londres - ela declara. - Contanto que retorne em uma semana para nova avaliação. Repouso absoluto, alimentação reforçada, zero atividades físicas. E se sentir dor, febre, pressão baixa, sangramento ou exaustão - ela faz uma pausa - vocês interrompem a viagem imediatamente. Se necessário, procurem um médico por lá mesmo.
Eu respiro fundo. Dante olha para mim. Não é aprovação. É medo disfarçado. Ele não quer me levar, mas não quer me deixar, e fazer isso com ele também me dói.
Ele assente para Chiara. Lentamente. Como quem concede território, não vontade.
Nos despedimos dela, Mario a acompanhou para fora e ficamos só nós dois.
- Medo? - perguntei.
- Sempre. - disse me puxando para ele. - Mas maior seria se eu te deixasse.

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