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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 81

Dante

Ela prendeu a respiração quando minha boca desceu pelo pescoço, seguindo o caminho que o medo tinha traçado antes. Cada beijo era um desmentido. Cada suspiro, uma prova de que ainda podíamos sentir algo além de pavor.

O dia lá fora continuava claro. Aqui dentro, o tempo desacelerou.

Eu a deitei com cuidado, como se fosse vidro e, ao mesmo tempo, a coisa mais resistente que já vi. O corpo dela respondeu ao meu toque como sempre respondeu: com entrega. Segura, inteira, confiante o suficiente para me puxar para si.

Não houve pressa.

Hoje não era sobre esquecer. Era sobre lembrar.

Lembrar que, apesar de tudo, ainda éramos nós. Que o mundo podia cambalear, a medicina podia falar de riscos, bilhetes podiam cuspir maldição... mas aqui, na nossa cama, o que mandava era a certeza.

Beijei cada medo até ele virar um suspiro. Toquei cada espaço onde a ameaça tinha se instalado até ouvir o meu nome escapar como oração.

Quando finalmente nos perdemos um no outro, não foi explosão cega. Foi um terremoto calmo, daqueles que mudam a geografia por dentro, mas sem derrubar a casa.

Valentina, mesmo com lágrimas ainda frescas nas bochechas, se prendeu a mim como se eu fosse chão. Eu a segurei como se ela fosse o meu céu.

E, por alguns minutos longos, o universo inteiro se resumiu ao som da nossa respiração misturada.

Ela viu as estrelas com os olhos fechados, no meio do dia. Eu também.

Quando tudo desacelerou, eu fiquei ali, deitado ao lado dela, o peito subindo e descendo devagar. Ela se encaixou na minha lateral, a cabeça no meu ombro, a mão, sempre ela, espalmada sobre a barriga.

Passei os dedos pelos cabelos dela, fazendo círculos lentos.

- Se isso for pecado, eu aceito o inferno. - murmurei.

Ela riu, fraca, mas riu.

- Idiota. - sussurrou, mais leve. - Você já mora no inferno há anos. Só mudou a decoração com flores e massinha de bolo.

- Verdade. - admiti, beijando o topo da cabeça dela. - Mas com você, até o inferno tem vista pro mar.

Ficamos assim até sentir o corpo dela pesar de cansaço. Os olhos começaram a fechar sem resistência.

- Vai dormir um pouco. - pedi. - O mundo pode esperar você tirar um cochilo.

- Você fica? - ela murmurou, já quase entregue.

- Sempre. - respondi.

Esperei o tempo que foi preciso para a respiração dela mudar, ficando mais lenta, mais profunda. Quando tive certeza de que ela estava dormindo de verdade, me levantei devagar, para não acordá-la.

Achei um roupão macio, vesti nela com cuidado, ajeitei o cobertor até o queixo. A luz, reduzi ao mínimo.

Passei a mão devagar pela barriga uma última vez antes de sair.

- Dois. - repeti, baixinho. - Vocês dois se aguentem aí dentro. Eu resolvo o resto.

Saí do quarto e fechei a porta com o mesmo cuidado de quem fecha um cofre. Sofia estava no corredor, encostada na parede, olhos vermelhos e maxilar firme.

- E aí? - ela perguntou, num sussurro. - Ela...

- Está dormindo. - respondi. - E vai continuar assim mais um pouco.

Sofia assentiu.

- Fica com ela. - pedi. - Qualquer sinal estranho, qualquer coisa que você ache fora do normal, você me liga.

- Sim, Don. - ela respondeu, sem o tom brincalhão de sempre. Hoje, a menina de glitter estava de luto preventivo pelos nossos medos.

Mario surgiu logo atrás, como uma sombra disciplinada.

- Don. - chamou. - Consegui o que o senhor pediu.

O Don que eu mantive trancado enquanto estava com ela finalmente voltou a ficar em pé.

- Vamos para o escritório. - ordenei. - Está na hora de lembrar o mundo que, enquanto eu não posso controlar o que acontece aqui dentro... - toquei o peito - ...eu controlo muito bem o que acontece lá fora.

Descemos em silêncio até a ala onde mantenho o que realmente importa para a guerra: informações.

O escritório era amplo, mas naquele momento parecia pequeno demais para a fúria que entrou com a gente. Tela grande na parede, mesa ampla, pastas alinhadas com obsessão, cheiros de papel, tinta, café já frio.

Sentei-me na cadeira que muita gente acha que é o trono de um Don. Eu sei que é só uma cadeira onde se escolhe quem vive e quem morre.

Mario colocou um tablet sobre a mesa, ao lado de algumas pastas físicas.

- Começa. - pedi.

Ele respirou fundo.

- Depois do bilhete em Paris, seguimos a ordem do senhor. - começou. - Rastrear o papel, o selo, a caligrafia. Cruzamos com o veneno usado no chá da senhora Valentina e... reabrimos tudo o que tínhamos arquivado sobre a explosão que matou a Lúcia.

O nome dela fez algo em mim que nunca vai parar de fazer. Um estalo longe, um eco de dor antiga.

- Vai direto ao ponto. - pedi.

- Sim, Don. - assentiu. - O resultado de hoje não deixa mais dúvidas.

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