Dante
Eu quis quebrar alguma coisa. Qualquer coisa. O aparelho, a parede, o mundo.
Em vez disso, apertei a mão dela.
- Isso não é castigo. - Chiara continuou, firme, como se soubesse exatamente onde o medo da minha mulher ia se agarrar. - Não é culpa sua.
Valentina balançou a cabeça, mas as lágrimas já estavam caindo.
- O que a gente faz? - perguntei.
Eu preciso de ação. Planos. Estratégia. Algo para matar. Algo para consertar. Mas ali... não existe inimigo de carne e osso. Existe um bebê muito pequeno lutando para ficar.
- A gente acompanha de perto. - Chiara respondeu. - Vou pedir alguns exames, reforçar a medicação para manter o útero o mais estável possível, ajustar alimentação, repouso. Volto aqui em poucos dias para repetir o ultrassom.
Ela respirou fundo.
- Pode ser que, na próxima vez, esse segundo coração esteja mais forte. - completou, oferecendo uma esperança. - Pode ser que ele esteja igual. Pode ser que... - a voz baixou - ...não o encontremos mais. Mas, em todas as possibilidades, o outro bebê continua com ótimos sinais. Isso é muito importante.
Valentina soluçou.
- Eu não consigo ficar feliz. - confessou, num sussurro quebrado. - Eu sei que tem um forte, eu sei... eu sei que ele está bem... mas... como é que eu comemoro um e... e não entro em luto pelo outro?
Eu puxei a cabeça dela contra o meu ombro, beijando os cabelos dela.
- Você não precisa escolher agora. - falei, baixo. - Nem nunca.
Ela segurou minha camisa com força, como se estivesse se segurando na borda de um precipício. Chiara desligou o som, mas manteve a imagem. Os dois pequenos mundos continuavam ali, lado a lado, um pulsando alto, o outro resistindo em silêncio.
- Vocês têm dois filhos. - a médica disse, com convicção. - Um está forte. O outro, lutando. Hoje, o que eu posso dizer é isso. E posso garantir também que... não há nada que você tenha feito de errado. E nada que pudesse ter feito de diferente para impedir isso. Não é culpa de vocês.
Valentina mordeu o lábio até ficar vermelho.
- Eu posso... - ela hesitou - ...falar com ele?
Chiara sorriu de leve.
- Deve. - respondeu. - Com os dois.
Valentina virou o rosto para a tela, os olhos transbordando.
- Ei... - ela sussurrou, levando a mão à barriga, o gesto instintivo - ...não desiste, tá? Nem você, nem seu irmão. A mamãe tá aqui. O papai é meio exagerado, mas você vai amar. Ele... ele faz café ruim, mas promessa boa.
Uma lágrima caiu no travesseiro.
- Se você quiser ficar, eu vou te amar todos os dias da minha vida. - ela continuou, a voz embargada. - Se não conseguir... eu prometo que você nunca vai ser esquecido. Nunca. Mas... - fechou os olhos, apertando de leve a barriga - ...se der pra ficar... fica, meu amor. Fica.
Eu não sei se existe algum deus ouvindo. Não sei se o céu tem paciência com homens como eu. Mas se tiver... eu aceito qualquer negociação.
- O que eu preciso fazer? - perguntei à Chiara, sem tirar os olhos da Valentina. - Remédio, exame, dieta, internação, qualquer coisa.
- Repouso relativo, nada de esforço. - ela começou. - Muito líquido, alimentação boa, sem estresse...
Eu ri sem humor.
- Estresse? - repeti. - Doutora, a senhora sabe com quem ela é casada?
Chiara ainda assim sorriu.
- E sei o que esse marido é capaz de fazer pelos que ama. - rebateu. - Então, a partir de hoje, seu trabalho é blindar essa mulher de tudo que não seja cuidado. O resto é comigo, com a natureza e... com quem quer que esteja acima de nós, se você acreditar nisso.
Não respondi. Mas entendi o recado.
Ela imprimiu as imagens, anotou orientações, pediu para que Valentina ficasse deitada mais alguns minutos. Eu agradeci, no meu limite, a profissional que tinha acabado de nos dar a melhor e a pior notícia da nossa vida ao mesmo tempo.
Quando a porta fechou atrás dela, a sala ficou menor.
Sofia se aproximou devagar, os olhos vermelhos.
- Amiga... - ela começou, engolindo o choro. - É... é lindo. Vocês têm dois. Dois, Tina.
Valentina virou o rosto para ela.
- E se eu perder um? - perguntou, sem filtro.
Sofia respirou fundo, segurou a mão livre dela.
- Então a gente vai amar os dois igual. - respondeu. - O que ficar e o que... - a voz falhou um pouco - ...o que não puder ficar. Mas até lá... a gente torce pelos dois como boa torcida organizada.
Mario continuou na porta, em posição de guarda. Eu sabia que ele queria se aproximar, dizer alguma coisa, mas ele entende de território tanto quanto eu. Esse momento não era para os soldados. Era para a família.
Eu me inclinei sobre a Valentina, beijei a testa dela, depois o canto do olho.
- Vamos pro quarto. - falei, suave. - Esse tipo de guerra a gente não enfrenta em maca. A gente enfrenta em casa.

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