Dante
Quando a palavra "problema" saiu da boca da Chiara, o tempo parou.
O som do aparelho continuou ali, aquele chiado de máquina velha misturado ao eco dos nossos próprios batimentos, mas dentro de mim tudo virou silêncio.
A mão da Valentina apertou a minha com força, os dedos gelados, o olhar colado na tela.
Do meu ponto de vista, a imagem parecia um borrão em preto e branco. Formas estranhas, sombras, pontos que se moviam. Mas eu aprendi a ler muita coisa sem nunca ter estudado, rostos, intenções, mentiras. E, ainda que eu não entendesse a anatomia, entendi a expressão da médica.
Ela estava vendo algo que não esperava.
Apertei ainda mais a mão da minha mulher.
- Explica. - pedi primeiro, baixo, no tom do homem. Chiara respirou fundo. Não respondeu. Continuou mexendo no aparelho, mudando o ângulo, aproximando, afastando.
Senti o Don subir devagar.
- Chiara. - repeti, agora com menos paciência. - Per favore, diga logo.
Ela tirou os olhos da tela e me encarou por um segundo, como se estivesse preparando o mundo antes de derrubar uma bomba. Depois olhou para Valentina, e a voz saiu num fio calmo, calculado.
- Tina... eu preciso que você respire fundo comigo, tudo bem?
Valentina só balançou a cabeça, sem conseguir responder.
- O que está... acontecendo? - ela conseguiu perguntar, a voz falhando.
Chiara girou um pouco o transdutor, e então apontou para a tela.
- Aqui... - ela disse, com delicadeza - ...é o que você conhece.
O aparelho fez um som diferente, mais ritmado. Ela apertou um botão, aumentou o volume. O coração do nosso bebê preencheu a sala. Forte. Rápido. Vivo.
Por um segundo, eu esqueci de respirar.
Era som de guerra vencida.
Eu ia chorar ali mesmo se o resto não tivesse vindo logo em seguida.
- E aqui... - Chiara deslizou o transdutor alguns milímetros para o lado, aproximou a imagem - ...é o que a gente ainda não sabia.
Outra forma. Outro espaço arredondado. Outro pequeno milagre em preto e branco.
- Como assim? - Valentina sussurrou.
Chiara sorriu com ternura.
- Você não está esperando apenas um bebê, Tina. - ela disse, com cuidado. - Você está grávida de dois.
A palavra atravessou a sala como um tiro silencioso.
Dois.

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